O poder público, por natureza insensato no trato com o meio ambiente, mostra de novo seus tentáculos ao pretender, com a crise energética, flexibilizar as regras ambientais para a implantação de novas usinas hidrelétricas e termelétricas. A Associação das Entidades Brasileiras de Meio Ambiente, que congrega o Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e Recursos Renováveis (Ibama) e os órgãos estaduais de fiscalização do setor, quer a elaboração de uma mapa das matrizes energéticas que podem ser exploradas em cada Estado.
Esse mapa já deveria existir, para se saber o potencial de cada região e a conveniência ou não de instalar usinas geradoras de energia, hidráulicas ou térmicas, movidas a gás ou a carvão, grandes ou pequenas. No passado a União determinava arbitrariamente onde construir usinas, e invadia territórios dos Estados, como aconteceu no Paraná. Agora, por conta do racionamento de energia, teme-se que o Estado predador e inconsequente retome os megaprojetos de hidrelétricas, com todos os danos ambientais daí decorrentes e a inundação de áreas próprias para a agricultura.
Terras agricultáveis são mais necessárias do que usinas, porque a humanidade pode sobreviver em regime de controle do uso de energia elétrica, mas sucumbirá se faltar alimento. Por isso há que se estabelecer políticas inteligentes de preservação das terras de produção agrícola, ou o Estado acabará cometendo um dano ainda maior do que o hoje vivido pelo racionamento de energia elétrica. O Paraná tem que ser poupado de mais alagamentos de suas terras, que são fertilíssimas e inigualáveis para a produção de alimentos em escala. Esse rico patrimônio não pode ser violentado, ademais porque nosso Estado já deu sua cota de contribuição na produção de energia para o Brasil, com o sacrifício de extensas áreas.
As autoridades sensatas e a população devem impedir o avanço dessa gana dos especialistas em implantação de usinas hidrelétricas, pois esses projetos têm mais caráter econômico do que estratégico. Vê-se agora que o Paraná acaba de produzir uma safra recorde de grãos e que, pela fertilidade de suas terras e pelo uso inteligente da tecnologia - beneficiados por condições climáticas favoráveis - vem aumentando sua produtividade agrícola, com isso abastecendo a população do Estado e mantendo sua cota de abastecimento para o Brasil. Não se pode permitir mais sangrias ao Paraná em forma de sufocamento de suas terras.
Porque a ciência e a tecnologia apontam para formas alternativas de produção energética, limpas e sem grandes riscos de danos ambientais. Este é o momento de aproveitá-las, ou assistiremos em futuro próximo a nova calamidade, que será a escassez de alimentos, para não falar do comprometimento da biodiversidade e demais prejuízos ao meio ambiente e às populações que hoje exploram essas terras. Já temos dito que a vocação do Paraná é produzir alimentos para o Brasil e não quilowatts. Felizmente, pela graça da fartura de terras e águas, nosso Estado tem feito as duas coisas, eis que produz excedentes de alimentos e de energia elétrica. Mas agora é hora de um basta, porque as terras - nosso mais precioso bem - precisam ser preservadas.

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