Deixemos de lado, no momento, avaliações acerca do político Antonio Carlos Magalhães (ACM), que acaba de renunciar ao mandato de senador para escapar da cassação que inevitavelmente ocorreria. Falemos de algumas verdades extraídas de seu discurso de renúncia, proferido no Senado. Uma delas, a de que o governo federal pouco fez para apurar denúncias de corrupção em seus domínios, e que ‘‘a Justiça não é operante como deveria ser, em certos casos’’. Cita como exemplo mais recente a absolvição de Sérgio Naya, o megaempreendedor responsável pelos edifícios que desabaram no Rio de Janeiro.
Recorda-se que, quando senador, ACM propôs reformas no Judiciário e chegou a assumir, em certo tempo, postura de verdadeiro confronto com esse Poder. Por quais razões não se sabe, mas muito provavelmente por pleitos não atendidos. Porque suas posições ao longo da vida pública sempre foram cíclicas e nunca permanentes. Muito mais para atender conveniências do que por espírito público e patriotismo. Se existe um político dominado pelo inconformismo ante qualquer oposição e capaz de tudo contra quem ouse atravessar seus caminhos, este é Antonio Carlos Magalhães.
Mas como os iguais se identificam e se atraem - e a repulsão é também uma forma de união, daí falar-se dos inimigos íntimos - ACM fala de cátedra ao mencionar as egocentricidades do presidente Fernando Henrique Cardoso. Em seu discurso ele desfia críticas e conselhos a FHC, de quem foi aliado ontem e é adversário hoje, e conclama-o a ‘‘não se julgar infalível, a não reclamar de todos e contra todos, a deixar de considerar-se uma entidade superior, onipotente, onipresente e abstrata’’; que ‘‘assuma os erros que são seus e não dos outros, muito menos do povo, a grande vítima de seus desencontros’’. E mais: que ‘‘tenha humildade, faça reflexão e veja que esta situação não pode continuar’’; e que ‘‘exija de seus economistas que não se preocupem apenas com números’’.
Se é certo que a nação se mostra aliviada com o desfecho representado pela renúncia do senador ACM - e gostaria que não fosse apenas dele, mas de boa parte dos membros do Congresso Nacional - também é verdade que aplaudiria se, a um passe de mágica, assistisse hoje ao presidente Fernando Henrique ‘‘pegando o bon钒 (no dizer de Itamar Franco) e deixando o Palácio do Planalto. Pelos índices de reprovação agora divulgados, vê-se que a popularidade do presidente da República chegou a um baixíssimo patamar. E se o voto popular, por uma manifestação de vontade, elege um político, a rejeição equivale a idêntica posição em contrário.
Por mais que o Palácio do Planalto tente minimizar as palavras do senador renunciante – não importando falar agora que falte ao ex-senador moral para fazer críticas a alguém na esfera governamental – a verdade é que ACM se afasta e FHC permanece, e são para ele as críticas e os conselhos. Que a nação inteira avaliza, porque muito estribados em verdades.

mockup