EDITORIAL
Engordando a cleptocracia oligárquica. Palavras de difícil compreensão, proferidas por uma autoridade governamental - e ainda bem - para definir a fórmula de atender aos nordestinos tangidos pela seca e pela fome. Os termos são do denominado ministro da seca, Raul Jungmann, ao condenar o modelo tradicional de utilizar carros-pipa para o abastecimento de água e de doar cestas básicas de alimentos para essa gente sofrida e mal assistida do nordeste brasileiro. Como agora está acontecendo. Clepto exprime a idéia de roubo, dissimulação; cracia significa domínio; e oligarquia, o governo nas mãos de um pequeno grupo de indivíduos ou famílias. Caso típico do Nordeste. -
Nos tempo do governo de Juscelino Kubitschek, pelas mãos do ilustre e
bem-intencionado homem público que foi Celso Furtado, foi criada a Superintendência de Desenvolvimento do Nordeste (Sudene), que visava - pelo próprio nome - desenvolver aquela região, sujeita a longas estiagens. O projeto era criar mecanismos de irrigação e obras contra as secas. Mas o governo de JK se foi, os anos se passaram e a Sudene - que acaba de ser extinta - nada ou pouco fez pelo desenvolvimento do Nordeste. Enriqueceu muita gente, isto sim, justamente as oligarquias que sempre se revezaram no poder, e também proeminentes figuras do mundo empresarial aqui mais ao sul, que se valeram do desvio de muito dinheiro destinado a irrigar o semi-árido nordestino.
Se houve a vontade de Celso Furtado e do presidente Kubitschek de salvar o Nordeste, tal nunca aconteceu, pela conveniência da cleptocracia oligárquica de manter a indústria da seca, rendedora de votos. O Nordeste continuou seco, as populações em eterno flagelo e as oligarquias mais robustecidas. Nestes dias que estamos vivendo a seca assume proporções alarmantes, três centenas de municípios já decretaram estado de calamidade pública e outros tantos estão em vias de fazer o mesmo. O socorro, mais uma vez, se fez necessário, e o governo teve que criar uma Câmara Setorial Extraordinária - o ministério da seca, inspirado no outro, o ministério do apagão. Comanda essa operação o ministro Raul Jungmann, com o encargo de distribuir água em caminhões-tanque e 100 mil cestas básicas, para que milhões de pessoas não morram de sede e de fome.
O próprio Jungmann enfatiza o clientelismo da denominada indústria da seca. Os clientes não são os sertanejos carentes; são outros, facilmente identificáveis. Os da cleptocracia oligárquica. Termo tão incompreensível quanto a perversidade que os governos centrais e os governos regionais, ao longo das décadas, vieram cometendo contra a sofrida gente do sertão nordestino.
Certamente que a solução é irrigar o Nordeste, extraindo dele as águas subterrâneas, que são abundantes, ou eventualmente a transposição dos rios - objeto de tanta discussão e de tantos prós e contras - mas as secas agudas se repetem e as soluções são sempre as de emergência, como agora acontece. Ao invés de os governos administrarem soluções para o drama do Nordeste, ficam todos os anos administrando as consequências do sempre adiado problema da seca. O pacote da sobrevivência, como se denomina esta frente de socorro, consumirá R$ 70 milhões. Um gasto que se faz necessário, nesta situação de calamidade, mas que muito bem poderia, junto a tantos milhões anteriores, ser destinado a projetos de infra-estrutura, como os de captação de água e de irrigação.





