Editorial
Muita coisa mudou na história do ser humano, através dos séculos. Longe vai o tempo em que um homem poderia ser condenado à prisão por roubar um pão, questão imortalizada na obra Os Miseráveis, de Victor Hugo. Hoje, nem as igrejas consideram pecado furtar alguma coisa para comer. Mas, nada disto significa que o ilegal virou legal, o errado se tornou certo e o injusto, justo. Quer dizer apenas que o juízo humano evoluiu para, sob certas condições atenuantes, desconsiderar como crime um ato menor praticado em circunstâncias muito adversas. O chamamento à invasão de escolas por um líder do Movimento dos Sem-Terra não se enquadra nesta última hipótese. Para dizer o mínimo, é, na acepção popular, uma idéia de jerico.
A luta dos sem-terra é legítima, e disto poucos discordam neste país de graves injustiças sociais e grandes extensões de terra inaproveitadas. Porém, se o sonho e a luta são legítimos, são ilegais a forma e os meios que o MST vem utilizando para chegar lá. E aí o que é certo se torna errado e o justo, injusto. Pode parecer paradoxal, mas os desvalidos - ou seus líderes - estão sendo injustos com quem, legal e legitimamente, possui terras para nelas viver, trabalhar e produzir. É exatamente o que eles também querem, mas não respeitam quando é de outro, muitas vezes realizado pelo trabalho de gerações.
Respeitar o que é dos outros é uma regra básica da Humanidade e que o desvalido de hoje vai achar muito boa quando, se conseguir o seu pedaço de chão, o desvalido de amanhã quiser invadir o que é dele. Ou não?
Prédios públicos também são propriedades. Não se nega que há muitos com pouco uso e às vezes nenhum. Mas seus legítimos e legais proprietários são os cidadãos que pagam impostos e contribuem para o bem-estar social. Se o Governo não faz bom uso do dinheiro arrecadado, não é motivo para se transgredir a lei e tomar próprios do Estado. Ou não pagar mais os impostos.
Sem dúvida, muitos prédios públicos poderiam ser usados durante períodos em que ficam vazios. Escolas, por exemplo, poderiam ser durante as férias ou mesmo depois do expediente, todas as noites do ano, centros de aprendizado para alfabetização, costura, culinária etc., para a população carente. Aprender a ler e escrever, cozinhar e fazer roupas dá dinheiro, trabalho e emprego. Mas o fato de isso não ser feito não autoriza que alguém venha com a idéia, irresponsável e estúpida, de que as escolas devem ser invadidas porque fecham à noite ou nas férias. Mais impressionante ainda, pelo tamanho da asneira e do abuso, é conclamar os sem-teto a invadir casas porque os moradores viajaram de férias!
As leis que protegem as propriedades, sejam elas públicas ou privadas, casas ou fazendas, foram criadas para defender, principalmente, os mais pobres. Os ricos e poderosos, em todos os tempos, sempre tiveram como fazer suas próprias leis, defender seus interesses ou mesmo avançar sobre a propriedade dos outros. As leis surgiram para garantir o convívio social e protegem, com maior ênfase, os mais fracos. E todos que são contra a lei, por mais justo que pareça o que desejam, estão agindo contra seus próprios interesses. Pois sem lei e sem ordem não há garantia para ninguém, menos ainda para os que nem um pedaço de terra ou uma meia-água têm para morar.
A reforma agrária é uma bandeira legítima, racional e economicamente progressista. Mas a invasão de propriedades privadas ou públicas para criar situações de fato e forçar soluções - impossíveis, nestas circunstâncias - é ilegal, desordeira e injusta. E toda essa desordem atinge não somente o grande proprietário, mas qualquer pessoa que tenha conquistado com trabalho e luta o mínimo que o ser humano precisa para a própria sobrevivência.
O estímulo à ação ilegal é um ato criminoso que não deveria partir de quem atua na liderança de qualquer movimento social. É um abuso - e não um ato menor como roubar o pão para comer - cometido contra toda a sociedade.





