EDITORIAL
É abominável que um político, ao deixar o governo a que pertenceu, comece a criticá-lo e a desfiar fórmulas mágicas de solucionar problemas que ele próprio não solucionou e nem se empenhou em solucionar. Essa prática se repete com frequência e acontece agora com o ex-secretário da Fazenda do governo do Paraná, Giovani Gionédis, que na qualidade de pré-candidato a governador começa a atacar o governador Jaime Lerner, a quem serviu até recentemente e para quem só tinha palavras de louvor.
Como secretário poderoso que era, ademais detentor da chave do cofre, ele poderia, quando no poder, haver sugerido ao chefe todas as mudanças que agora propõe. Já falando como candidato e visando ganhar a simpatia do eleitorado, ele faz pronunciamentos pela imprensa que são de crítica, ao afirmar que a máquina administrativa estadual está inchada e necessita de cortes profundos em sua estrutura; que essa máquina tem que ser eficiente e não um elefante branco; que faltou coragem ao atual governo para levar adiante o ajuste fiscal e outras reformas; que é um exagero o Estado ter 29 secretarias, 14 autarquias e 7 empresas de economia mista, e por aí afora.
Deve ter razão o candidato, mas por que não defendeu isto quando tinha poderes para concretizar tais mudanças? Ele agora afirma que não é necessário oferecer incentivo para atrair empresas de fora ele que apoiou o modelo de industrialização do governo estadual e foi um dos seus principais agentes. Ora, tinha o então secretário Gionédis muita força para haver dado encaminhamento a tudo o que agora sugere, e com certeza muita coisa teria sido acatada pelo governador.
Assessores fortes ademais quando enfeixam em suas mãos o controle do dinheiro são muito poderosos nos governos, assim como o superministro Pedro Malan é no governo de Fernando Henrique Cardoso e como o general Golbery do Couto e Silva o foi nos governos militares. Mas, enquanto no poder, essas eminências ocultas se dedicam muito a cuidar do próprio reduto, e no mais dos casos articulam para boicotar boas idéias, se tiverem origem fora de seus domínios. Não se pode afirmar que Gionédis tenha agido dessa forma, mas é assim que geralmente acontece.
O ex-secretário da Fazenda não deixou o cargo pelo fato de, eventualmente, idéias suas não serem acatadas e aí teria razões para afastar-se e criticar o governo. Ele se afastou por razões outras, marcadamente as mudanças desencadeadas pelo secretário-chefe da Casa Civil, Alceni Guerra, que então assumia. Não cabiam os dois sob o mesmo teto. Verdade que outros cargos de primeiro escalão lhe foram oferecidos, porém sem o poder da chave mágica que abre todas as portas.
Decepciona a atitude do ex-secretário já definido candidato pelo seu partido (PSC), para o qual acaba de ser eleito presidente eis que começa sua campanha criticando o governo ao qual serviu até o último momento. Demonstra que, se permanecia num governo cheio de falhas e nada fez para mudar esse estado de coisas, então consentia nisso. Se nada fez quando podia, não se crê que o faça numa segunda oportunidade.
Difícil, com tais comportamentos, os candidatos e governantes recuperarem a credibilidade pública. Isso apenas mostra que eles são iguais nos métodos e se repetem.





