EDITORIAL
É um engano imaginar que a transferência, para a região sul, de jogos de futebol que estavam programados para o horário noturno, em São Paulo, irá trazer tantos benefícios para as cidades que os sediarem. Ao contrário, trará prejuízos, pela evasão de grande soma de dinheiro. Antes de mais nada, não se entende essa política de apagar os holofotes lá e acendê-los aqui, eis que a simples mudança de local não irá impedir o consumo de energia elétrica, pois o sistema é interligado.
Empolga, sobretudo em cidades que não têm a oportunidade de assistir, ao vivo, a grandes espetáculos esportivos, receber times famosos, ver os estádios locais cheios, conhecer ídolos do futebol e vê-los jogar, mas quem paga o custo disto são os espectadores da cidade e região, e o dinheiro arrecadado vai embora, descapitalizando as sedes-palcos desses jogos.
Tomemos o exemplo de Londrina, terceira cidade mais importante do Sul e que sediará quatro grandes partidas, envolvendo Corinthians, São Paulo, Palmeiras, Santos, Vitória e Santa Cruz. A cidade hospedará as delegações, hotéis e serviços serão beneficiados e a Fundação Municipal do Esporte irá receber 15% da arrecadação. Porém 85% da receita, que é dinheiro da cidade e precisa fazer seu giro aqui, vai embora nas sacolas dos times que aqui virão jogar entenda-se suas respectivas Federações.
O que se deve exigir é que a arrecadação inteira fique aqui, pois quem vem de fora e se vale dos benefícios da cidade tem de pagar por isto. Diferente de quando as agremiações locais, se alcançam classificação, enfrentam aqui esses mesmos times, porque ficam com a renda. No presente caso não, porque as duplas de times são todas de fora, e Londrina só para citar a situação local terá que pagar, quando deveria receber.
Ter suficiência de energia elétrica é um privilégio conquistado, então, quem quiser valer-se disto que pague o preço. Esta é a oportunidade de tirar proveito da crise energética e não de fazer concessão, e ainda pagar por ela, pois estes não são jogos beneficentes... Atendem, isto sim, a conveniências lojísticas dos times interessados. Diferente de outros espetáculos que chegam à cidade. A Fundação Municipal de Esportes já confirmou os quatro jogos, entusiasmada com os minguados 15% da receita das bilheterias que irá receber, quando deveria estar recebendo 100%.
Se o estádio receber 30 mil espectadores em cada jogo, com ingressos a R$ 10, a cidade verá irem embora 85% disto, que representam R$ 255 mil, ou R$ 1 milhão em números redondos, nos quatro jogos. Então, nesse show do milhão a cidade e a região terão uma evasão de moeda circulante que fará falta aqui, para o giro de sua economia. A prefeitura, tão escassa de recursos, deve repensar os acordos que fez para abrigar esses jogos do Campeonato Brasileiro de Futebol.
A cidade, literalmente, está sendo alugada pela Confederação Brasileira de Futebol, então que a entidade pague esse aluguel. O percentual de 15% baseia-se no que o Estádio Morumbi, em São Paulo (que é particular), cobra para sediar outros jogos. É diferente a situação paulista, porque os times são de lá mesmo e o dinheiro não sai da cidade. Que entenda isto o prefeito de Londrina e o presidente da Fundação Municipal de Esportes.
Indiscutível que a vinda desses jogos divulga o nome da cidade e alegra quem os assiste, contudo essa divulgação seria muito mais importante se os times locais fossem os agentes desse processo, pela sua participação nos grandes campeonatos. Melhor, então, será repensar políticas para levantá-los, ao invés dessa diversão cara com espetáculos alheios.





