EDITORIAL
O presidente Fernando Henrique Cardoso sempre se perdeu pelas suas palavras nos momentos em que esteve acuado por críticas, e como se isolou dos que poderiam proporcionar-lhe bons aconselhamentos e socorrê-lo nas adversidades, vai chegando ao final de seu governo de maneira melancólica. Diz agora que a democracia corre perigo, por conta do clima fascista promovido pelas oposições.
Imagina-se que com o fervor da campanha pela sucessão presidencial, que se inicia, os ataques dos adversários políticos serão cada vez mais frequentes e FHC não terá estrutura para suportá-los. O outrora democrata e militante político liberal revelou-se um governante dominado pela doença crônica de não querer ouvir ninguém e pretender bastar-se por si só.
Em seis anos e meio de governo, nenhuma vez o presidente da República desceu às bases para conversar com as lideranças empresariais, com a gente da agricultura, com os cidadãos do povo. Até seus melhores companheiros de ideais e lutas foram se afastando de seu convívio e alguns se transformaram em críticos pesados contra seu governo.
FHC nunca se sentou à mesa com os industriais, ao menos para ouvi-los e ser ouvido, e se o houvesse feito teria obtido deles ao menos o apoio e a simpatia, para não falar dos subsídios que colheria. FHC presidente nunca veio ao Paraná um dos maiores Estados agrícolas do País para conversar com as lideranças do campo. Tivesse comparecido mais amiúde por aqui, com toda certeza teria hoje outra concepção acerca do que a economia agrícola e pecuária representa para o Brasil.
Nunca o presidente desceu aos Estados mais ao Sul, nem foi a qualquer outro ponto do Brasil, com a finalidade de conversar com as lideranças regionais ou, no mínimo, para sentir o bafejo do povo. Viajou muito, sim, mas para o exterior, onde o aguardava o aplauso da diplomacia dos cerimoniais e de velhos amigos intelectuais, companheiros encontrados ao longo de seus exílios e incursões por outros países, em tempos de perseguições que lhe fazia o regime ditatorial brasileiro.
Não visitou o Brasil, o nosso presidente, porque aqui há menos louvações e mais questões a discutir, muitas sugestões a serem feitas a ele, e sobretudo muitos reclamos. Melhor então foi sempre fugir. E, por escassez de tempo se ao menos vontade houvesse seus dias de governo vão chegando ao fim sem que ele possa conhecer, em sua plenitude, o país que governa.
Sem amigos e conselheiros destes que os estadistas nunca dispensam, e justamente por isso estadistas FHC viveu sempre isolado do Brasil e dos brasileiros. Razão porque não conhece a natureza dos clamores populares, e por não os conhecer, tanto se melindra ao menor aceno de alguma reivindicação ou crítica.
Então, não tivemos um presidente entusiasmador do povo, destes que alevantam as massas e as empurram para a frente, mas ao contrário, um presidente dominado por ares de arrogância, pela irritação fácil, pelo ego acendrado que se supunha inexistente num sociólogo de seu nível, e pelo descontrole das palavras, sempre ácidas ante os que ousem fazer reparos em seu desempenho presidencial.
Agora mesmo, cercado pelo problema da energia elétrica criado pela própria negligência de seu governo e pelo seu descaso de ouvir advertências irrita-se de novo e proclama que a democracia corre perigo com o clima fascista e de golpe fomentado pelos oposicionistas. Naturalmente que isto não ocorre. Mais parece que o presidente está vendo fantasmas.
Diríamos que, se algum risco corre a democracia, é por termos um presidente que se vale da barganha para impedir uma CPI que viesse a investigar denúncias de corrupção em seu governo; que, através de atos institucionais (as suas medidas provisórias) impõe uma lei do apagão mas fecha os Procons e tira o direito do povo se queixar se um eletrodoméstico venha eventualmente a se danificar em consequência dos cortes e retomadas de energia.
Uma contingência nacional não pode se converter em ditadura, eis que não estamos vivendo em regime de guerra ou então voltamos aos tempos da ditadura militar, que FHC e a Nação esclarecida tanto combateram. Sofre riscos a democracia se o presidente dá as costas para o Brasil e só ouve o que lhe ditam as vozes de além-fronteiras; se fica permanentemente fixado em sua política monetarista e se esquece que só o desenvolvimento criará uma moeda forte e estável, e não a especulação financeira e o investimento volátil, que pode ir embora tão fugazmente quanto veio.
Não temos que alimentar temores de golpe, um perigo que realmente não existe, a não ser na obsessão cassandro-opiniática de FHC. Temores já estamos vivendo, ante tanta denúncia e comprovação de corrupção na esfera governamental, ante barganhas e CPIs abortadas, e ante um governo que nunca conversou com o povo e nem parece propenso a fazê-lo, ademais porque pouco tempo lhe resta.
Como governar assim? Como esperar êxito de um governo que age dessa maneira? Que se isola e nem ata e desata? Denúncias de oposição nunca puseram democracias em risco, mas ao contrário, consolidaram-nas. Fernando Henrique Cardoso paga o preço de seu isolamento, de seus melindres e de suas alucinações, que o assombram com supostas forças ocultas. Um presidente brasileiro já renunciou por causa delas.





