O governo do presidente Fernando Henrique Cardoso luta e reluta para evitar a instalação da CPI da Corrupção, mas tem motivos de sobra para isto, porque são muitas as denúncias de irregularidades, já objetos de investigação. Agora, pela revelação da revista ‘‘Veja’’, um velho escândalo se reacende e ganha maior dimensão, trazendo novos dados à investigação sobre a venda de informações privilegiadas na gestão de Francisco Lopes como presidente do Banco Central.
As denúncias já estavam sendo investigadas pela Polícia Federal, mas a publicação da revista, agora, pode reanimar a semi-abortada CPI, o que, naturalmente, não convém a FHC e seu partido, faltando 18 meses de governo, e quando se abre a temporada da campanha para a eleição presidencial. A principal denúncia que pesa contra Francisco Lopes é que ele, na qualidade de presidente do BC, vendia informações sobre taxas de interesse e de câmbio.
Segundo a revista, as informações eram repassadas a dois sócios, que as transmitiam aos clientes da rede, através de telefone celular, naturalmente mediante pagamento. O dono do Banco Marka, Salvatore Cacciola – hoje foragido na Itália – teria descoberto a rede através de escuta telefônica clandestina e passou a valer-se das informações. Mais que isso, Cacciola passou a chantagear o Banco Central com a ameaça de que tinha as gravações das conversas e com isso obrigando o BC a lhe vender dólares a preço inferior ao do câmbio. O esquema teria rendido R$ 1 bilhão ao banqueiro ítalo-brasileiro.
Imagine-se em que mãos estava o comando do Banco Central da República! Mas como não é apenas este o fato tristemente comprometedor para a imagem do governo de FHC, razões existem de sobra para se implantar a CPI da Corrupção, embora isto viesse a centralizar a já pouco produtiva atividade parlamentar, junto com as demarches para cassação de dois senadores, um dos quais – Antonio Carlos Magalhães – afigura-se como o mais poderoso homem público brasileiro das últimas duas décadas.
Esses fatos agitam a comunidade político-governamental, e a Nação sofre com os abalos, porque projetos importantes, que aguardam exame e votação, vão ficando engavetados. Tudo demonstra que os derradeiros meses de mandato de FHC sejam inúteis e apenas contagem regressiva de tempo, com a Nação não vendo hora para acabar.
Diante das novas revelações sobre o escândalo do BC, o porta-voz oficial diz que o presidente Fernando Henrique nada sabia sobre ‘‘o deslize do mencionado funcionário’’. Acredita-se que sim. Só faltou afirmar que o chefe do governo foi ‘‘pego de surpresa’’, expressão usada por FHC para dizer que não sabia de outro caso – a iminente escassez de energia elétrica e do consequente racionamento. A esta altura já não se sabe se é pior para a Nação ter um presidente que sabe das coisas e não age, ou que realmente não sabe de nada do que se passa dentro de seu governo e do País que governa.
O presidente da República não quer a CPI, mas não consertará o País alicerçado na corrupção e assumindo atitude de condescendência ante tantos desmandos que marcam seu governo. Com isso, ele favorece o ambiente de degradação moral da administração pública e passará à história com a nódoa de ser um protetor de corruptos. Se pouco se espera que seu governo ainda faça, em termos de obras e reformas estruturais, que ao menos FHC marque seus dias restantes como um combatente pela moralidade pública. Sua Excelência aproveitaria melhor o seu tempo limpando o próprio nome e de sua administração do que gastando tanta energia para nutrir seus egos e fugir das investigações.

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