É raro na história dos confrontos de policiais com a sociedade civil isto que agora ocorre, de eles se verem frente a frente com manifestantes que são suas próprias esposas. No caso, reivindicando por eles mesmos e, por assim agir, terem de usar de estratégias como barrar a saída de viaturas dos quartéis, esvaziar pneus e impedir o avanço e a repressão dos mantenedores da ordem pública, que por irônica coincidência são seus próprios maridos.
E, independente da intervenção de tropas de elite que agora entram em ação, a mando do governo, o que se observa é que os policiais, por conhecerem os manifestantes e compreenderem sua causa, não estão empregando a força bruta, nem usando escudos antichoque e nem distribuindo bordoadas. O episódio é oportuno para que lhes toque a sensibilidade de perceber que outros manifestantes, em circunstâncias idênticas, são iguais às suas esposas e com direitos semelhantes.
Diante das mulheres reivindicantes, o que se vê pelas fotografias é que a fisionomia dos policiais não é de ira nem de nervosismo, mas de uma indisfarçável solidariedade. A mesma postura que a sociedade gostaria que eles sempre tivessem com as demais pessoas, em circunstâncias idênticas. Não se pede que ajam assim com os delinquentes perigosos, mas que atentem para o respeito que devem ter para com todos os cidadãos, como se cada um – mulheres ou homens – sejam tão importantes e cheios de razões e direitos quanto suas esposas que agora clamam nas ruas.
Se é possível usar de serenidade e respeito ante essas manifestantes especiais, não obstante cidadãs comuns no exercício de seus direitos, também é possível que ajam da mesma forma em qualquer situação semelhante, sem o emprego do arbítrio e da violência. Com toda certeza, alguns atos das reivindicantes caracterizam desacato à autoridade, impedimento da ação policial e outras figuras de delitos – e se a polícia desejasse enquadrá-las teria razões de sobra – mas não foi preciso recorrer a esse expediente, mesmo porque desnecessário.
Então, que o exemplo sirva para mostrar que é possível a flexibilidade sem a rigidez da força bruta, e a condescendência sem a fragilidade da frouxidão. A polícia não perde autoridade ao agir com moderação, e os comandantes não devem se sentir atingidos porque seus subordinados lhes viraram as costas, em certo momento. Este é um episódio atípico, pelas suas características; então, deve receber tratamento igualmente atípico.
A comunidade policial deve saber que, na presente causa, conta com o apoio da sociedade. Não será preciso fazer uma tomada de opinião para constatar que a totalidade da população é favorável a que estes servidores tenham melhor ganho. Então, que saibam eles e seus comandantes que um policial não precisa ser algoz com os cidadãos. Ele já se impõe pela própria presença, sem necessidade de mostrar prepotência.
Se a manifestação de agora tem um recado direto para o governo – aí compreendido também o Poder Legislativo, que não pode ficar alheio ao que ocorre – está mostrando, a quem tem a sensibilidade de perceber, e especialmente aos policiais, que é possível manter a ordem pública sem molestar as pessoas. A serenidade, que não precisa dispensar a firmeza, é sempre a melhor conselheira. O episódio serve para mostrar que, no trato com as pessoas, os policiais devem sempre agir como se elas fossem suas esposas.
E o governo que não se encha de ‘‘ira cívica’’, mas busque fórmulas sábias de solucionar o impasse, antes do uso da força. Porque é justa a reivindicação das manifestantes. Repressões violentas são medidas fáceis de tomar – basta uma ordem. Difícil é ter sabedoria para solucionar o problema que gera este movimento reivindicatório, que não é novo. A simples reação pela força não o eliminará.

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