EDITORIAL
Há tanto dinheiro envolvido nos esportes, marcadamente o futebol, que as redes de televisão já se dispõem a instalar geradores próprios nos estádios, para realização de alguns jogos noturnos que pretendem transmitir e que já constam de contrato. No total são 129 jogos que estavam agendados para a noite, só no Campeonato Brasileiro de Futebol. A solução parece mais simples do que a medida radical do governo que suspendeu esses jogos e outros eventos noturnos, como espetáculos ao ar livre do tipo rodeios, circos, exposições e afins. Já se tratou ontem sobre o que representa em prejuízo e contra-senso a suspensão dessas atividades noturnas, geradores de empregos e agentes de dinamização econômica.
Se nem todas as prefeituras dispõem de recursos para instalar geradores próprios em seus estádios e demais praças esportivas, este é um caminho que se pauta no bom senso e na busca inteligente de solução, e não a medida abrupta do governo em logo ir fechando tudo e empurrando os jogos para o horário de trabalho. De alguma forma, se o mais não bastasse, jogos à tarde em dias úteis que já se realizam há algum tempo são um estímulo ao abandono do serviço. O que ocorre é que as instituições oficiais agem isoladamente na maioria dos casos e não consultam os segmentos da sociedade envolvidos. Acontece agora, como aconteceu antes. Neste episódio do racionamento o governo já voltou atrás, na história dos bônus, e ainda bem que o fez, mas isto só demonstra a sua ação precipitada.
Outro equívoco, embora a proposta empolgue especialmente as cidades do interior, carente de bons espetáculos, é a idéia de trazer jogos dos campeonatos nacionais para a Região Sul, que está fora do racionamento. Algumas cidades já se adiantaram e ofereceram seus estádios. Se há muitos ganhos, como as taxas de uso, movimento de hotéis e serviços afins, há a considerar a evasão de renda, com tais eventos, porque quem paga o ingresso são os torcedores locais, e a maior parte desse dinheiro vai embora. Descapitaliza as cidades-sede. Um jogo entre dois grandes times, por exemplo, atrairia público numeroso mas resultaria em prejuízo para a região, pela enorme soma de dinheiro canalizada para fora. Como acontece, só para citar um exemplo, com o gigantesco deslocamento de dinheiro que ocorre com as loterias, daí muitas correntes de opinião serem favoráveis a que elas sejam estadualizadas ou mesmo municipalizadas.
Todas as práticas possíveis devem ser consideradas, para racionar o uso de energia elétrica, de forma que ela se baste para todos, mas é necessário conciliar políticas de racionamento com a sensatez, e não deverá ser o governo o primeiro a atropelar esse princípio. Ou será como conectar a tomada na voltagem errada e provocar um enorme estrago. O ministério do apagão, que ao apagar das luzes transformou-se no mais importante da República, não pode agir sozinho, pela decisão de seus burocratas, mas ouvir os especialistas, os segmentos da comunidade produtiva e os cidadãos em geral, que com toda certeza têm grandes contribuições a dar nessa cruzada, que envolve cada um dos brasileiros e precisa contar com a responsabilidade de todos.





