Editorial
A questão do horário de funcionamento do comércio, tema sempre polêmico, volta a ganhar espaço. Enquanto em Londrina a Câmara Municipal aprova tímido projeto permitindo que o comércio abra das 8 às 18 horas no primeiro sábado de alguns meses, em Campo Mourão o Legislativo vai muito além, autorizando a atividade comercial durante as 24 horas do dia. E em São Paulo, mesmo sem autorização, muitos estabelecimentos estão abrindo aos domingos e faturando bastante, fator importante numa época que não é das melhores em termos de vendas. Não se pode, certamente, elogiar uma atitude ilegal (no caso, a abertura do estabelecimento contra a legislação vigente), mas salta aos olhos que se isto está acontecendo é porque os Legislativos estão fora de compasso em relação à realidade.
Em tais episódios, é válido rememorar que a Câmara de Campo Mourão enfrentou forte campanha para não aprovar o projeto. Foi necessário coragem e visão por parte dos que perceberam que, apesar da pressão, o projeto em si tem potencial que não pode ser descartado. Trata-se, fundamentalmente, de perceber que as mudanças em curso na sociedade organizada exigem alterações gerais para se superar os desafios cada vez maiores enfrentados pela população. O mundo está em verdadeira efervescência, exige-se mais produtividade, mais racionalidade, melhor aproveitamento para superar os obstáculos cada vez maiores. Está aí o desemprego, fantasma a assustar cada vez mais gente, enquanto os governantes, aparentemente, não encontram meios para atender às necessidades do mercado.
Pensar, como algumas lideranças sindicais andam apregoando, que vai se resolver o problema da falta de emprego com redução no horário de trabalho, o que em tese criaria novas vagas, é persistir em equívoco muito perigoso. Hoje, mais do que em qualquer outra época da História, a alternativa para a humanidade não é trabalhar menos. Diminuir o horário para uns não resolve o problema fundamental - a abertura de caminhos para um contingente humano crescente que necessita do trabalho para se manter. O que se precisa, ainda mais diante das intensas e rápidas transformações na vida atual, é mudar a mentalidade para aproveitar as oportunidades, criar novos espaços, buscar alternativas visando atender às necessidades do mercado.
A mudança do horário comercial representa saída importante. Questionar isto, como aconteceu em Campo Mourão, com a alegação de que a alteração prejudicaria o estudo dos comerciários, é observar a questão de um ângulo errado. Afinal, assim como no comércio, é possível mudar horários em escolas. Aliás, esta é uma questão que já deveria merecer maior atenção, até porque os currículos normais atuais fazem com que os brasileiros usem estabelecimentos de ensino apenas na metade de sua disponibilidade, computando no caso férias, feriados e períodos de descanso. Existem estabelecimentos enormes que ficam ociosos boa parte do ano e ponderável parcela do tempo, enquanto se reclama da falta de vagas.
Abrir o horário do comércio, permitir que funcione aos domingos e feriados nem é sequer novidade. Em Londrina, como em todos os centros em que há shopping centers, tais estabelecimentos funcionam à noite, nos fins de semana, até nos feriados. E as chamadas lojas de conveniência, que abrem as 24 horas do dia, estão se multiplicando, o que atesta que há mercado. O que se faz necessário, no caso, não restringir o comércio, mas exigir segurança que garanta a tranquilidade no trabalho de quem abre à noite ou sai para fazer compras. E, com isto, também se abrem vagas para este setor.





