Primeiro o governo comete a negligência de não prever necessidades fundamentais, como a da geração de energia elétrica suficiente para a demanda atual e futura do País; depois é obrigado a assistir ao drama do racionamento e sair em busca de administrar esse problema. Uma coisa é a economia consciente de energia, o que deve ser uma responsabilidade de todos, e outra são medidas que trazem pouco benefício e muito prejuízo, como algumas já tomadas pelo governo.
Teme-se, agora, pelas atitudes que o ‘‘ministério do apagão’’ irá tomar, por conta do problema do racionamento. Os primeiros atos equivocados já se revelam: o governo anuncia que sacrificará verbas de atendimento social para atender a essa nova frente que o desafia, e assinou medida provisória que atropela certas exigências de preservação ambiental para a implantação de usinas geradoras de energia.
E afora essas ‘‘iluminadas’’ providências, ontem os jornais anunciaram a mais hilariante, que pouco economizará de energia mas causará muito prejuízo, desnecessário e por isso evitável. Falamos da suspensão dos jogos, nos estádios, de shows, circos e atividades afins em ambientes abertos, durante a noite, como parques de diversões, exposições, rodeios.
O governo comete um equívoco ao determinar que os jogos programados para a noite se realizem durante o dia, em pleno horário de trabalho. Ontem já houve um, em São Paulo. Mas se esta é a política que deseja manter, seria interessante que, para lotar os estádios de dia, determinasse também o fechamento das fábricas no horário desses jogos, que, assim, haveria ainda menos gasto de energia elétrica e os trabalhadores ficariam liberados para ir aos estádios... Não é hora para gracejos, mas é o governo quem os faz.
Se os eventos citados não serão mais permitidos à noite, as empresas e instituições que promovem alguns deles terão que encerrar atividades, e isto significará aumento de desemprego e desaceleração da economia. E o pior, na escuridão. Não é por aí. O que se espera do governo é que abra caminhos e facilitações para que as empresas – até onde possível – passem a adotar sistemas alternativos de reforço de energia, para suas próprias necessidades.
Muitas delas já começaram a fazer isto, por conta própria. Exemplos da Companhia Siderúrgica Nacional, Companhia Siderúrgica de Tubarão, Coca-Cola, Aracruz, Paraibuna de Metais, AmBev, Shopping Carioca, Bristol Meyer Squibb, Alsom Power, Gerdau, Copesul, Massey-Ferguson, Tramontina, Ferramentas Gedore e Pão de Açúcar, só para citar as mais importantes.
O governo não deve agir como agente direto de práticas de racionamento. Seu papel é apresentar fórmulas e dar condições para que a sociedade administre a situação. É necessário que cada cidadão mude seus hábitos caseiros e economize energia, e cada qual sabe como fazer; e que os empresários, além de municiar-se de geradores próprios e adotar outras medidas estratégicas, adaptem seus equipamentos e sistemas, de forma a gastar menos luz e força. A função do governo, além de estabelecer políticas claras para o setor, é abrir caminhos para a implantação de miniusinas, movidas a água, a gás, a óleo e pelo uso da biomassa – naturalmente dentro das normas de preservação ambiental – afora os indicativos para exploração da energia solar e dos ventos.
O Brasil viveu a era dos megaprojetos de produção energética e esqueceu dos mini, que poderiam atender a setores localizados, e hoje não estaríamos vivendo esta crise, que nem começou mas já afeta a todos. Melhor do que impedir a atividade noturna de esporte e lazer – que é geradora de empregos e tem natureza econômica – é apresentar propostas para que esses setores comecem a municiar-se de sistemas para gerar a energia de que necessitam, naturalmente onde for possível. Não é algo fácil, mas são alternativas que precisam ser consideradas e examinadas, antes de medidas extravagantes, mais hilárias que produtivas.
O governo – entenda-se a Nação como um todo – pode tirar proveito da crise, gerando desenvolvimento na própria dinâmica de solução do problema. Ironicamente, foi durante crises e pós-guerras que fabulosas somas foram investidas, justamente na solução do problema gerador das calamidades, no mundo, e isso resultou em grandes saltos de desenvolvimento. O governo deve acender as luzes da estratégia e estimular o despertamento da criatividade. Este é um bom momento de se tirar proveito do caos, e no próprio processo das soluções promover o desenvolvimento e gerar riqueza. A humanidade já conhece esses caminhos.

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