EDITORIAL
O protesto das mulheres dos policiais e seus filhos é uma manifestação com característica muito especial, porque conta com o apoio das forças de segurança que poderiam reprimi-la, justamente os maridos e pais dos manifestantes. Mas não é por isso que a situação é delicada e sim porque o Estado está endividado e os policiais ganham muito pouco.
Como sempre, também neste caso os governantes vão deixando que os males cheguem ao ponto de combustão, para só então, inevitavelmente, ter de sair em busca de solução dos problemas gerados. Enquanto a corrupção e os esbanjamentos correm soltos, com desperdícios de dinheiro que obrigaram à criação de uma lei de responsabilidade fiscal, setores vitais como o da segurança para não falar agora da saúde e da educação são sustentados por verbas escassas e por salários miseráveis para os profissionais dessas áreas.
O movimento das esposas dos policiais reivindica gratificações não pagas desde 1996, sobre salários que são de apenas R$ 600 líquidos, em início de carreira. Muito pouco, para homens que precisam enfrentar a violência das ruas e que, por isso, estão com a integridade sempre exposta e a própria vida em perigo.
Se o governo alega que não tem condições de atender à reivindicação das manifestantes, deve ter consciência de que as políticas públicas sempre foram pródigas em contemplar, com polpudos rendimentos e mordomias sem conta, privilegiados segmentos dos Três Poderes do Estado, em prejuízo dos servidores que atuam no mais perigoso, no mais pesado e estafante.
Um punhado de homens públicos, com seus staffs inoperantes e desnecessários e a estrutura caríssima de que se servem e que pouco serve aos cidadãos consome mais do que o que os policiais reivindicam em reposição salarial. Se sobram verbas para a farra pública em certos setores, elas iriam inevitavelmente escassear para os efetivos policiais, e por extensão para as áreas da educação e da saúde.
Ao invés de citar, agora, a Lei de Responsabilidade Fiscal (LRF) como limitadora de gastos com pessoal e falar de punições a policiais que fizeram manifestações desrespeitosas aos comandantes, deveriam os governantes atentar para a realidade que torna tão difícil sobrar dinheiro nos cofres do governo e impede que se pague melhor a estes tão sacrificados servidores.





