EDITORIAL
Por não ter sabido administrar soluções na questão da produção de energia elétrica, o governo tem agora que administrar o problema daí decorrente. Certo que muito mais complexo será ocupar-se deste segundo item, com o agravante do prejuízo já instalado para o País inteiro. Pobre de um povo cujos governos estão sempre às voltas com administrar problemas, caso do Brasil, que primeiro deixa os males acontecerem para depois se ver na inevitável contingência de ter de solucioná-los.
Governar não deve ser isto, mas o necessário censo de previsão das macrotendências, e uma delas, que salta à vista, é a demanda crescente da energia elétrica. Um país em crescimento exige que os governantes caminhem no mesmo passo, ou serão atropelados, como acontece agora com a revelação de que precisamos de mais força elétrica do que a que estamos produzindo.
É dever do Estado se colocar na linha de vanguarda e antecipar-se aos problemas, com o discernimento para detectar necessidades futuras. A administração da suficiente provisão energética é tarefa do poder público, mas o governo, enquanto apregoa ideais desenvolvimentistas, negligencia com um item fundamental, que é o suporte da energia elétrica.
Causou perplexidade ler-se nos jornais, ontem, a declaração do presidente Fernando Henrique Cardoso de que a crise energética o pegou de surpresa. Não há como absorver essa surpresa presidencial, porque há vários anos o alerta da escassez futura vinha sendo feito. Ocorre que o presidente FHC preocupou-se em demasia, nestes seis anos de seu governo, com questões monetaristas e com sua própria imagem no exterior. Agora, não terá como utilizar-se de qualificativos contra alguém, como é de seu feitio, a não ser contra ele próprio, para justificar a crise energética e o racionamento inevitável, que nenhum discurso, nenhuma barganha e nenhuma medida provisória irão deter.
É injustificável, também, o que se ouve do ministro da Fazenda a eminência parda da República de que houve problemas de comunicação e de coordenação das equipes do governo, que demoraram a tomar conhecimento da crise energética. Crise que se avizinha, e dela certamente o superministro tinha conhecimento, mas nem por isso deixava de apossar-se dos recursos da Eletrobras para cobertura do déficit público, ao invés de esses recursos serem destinados ao estudo de novas estratégias para a geração de energia e para o próprio investimento no setor.
Neste momento o ministro fala em equipes do governo, quando ele é o comandante de todas as equipes, eis que detém a chave do cofre e nada se movimenta em Brasília se esse mágico instrumento não for acionado. Pelas suas mãos, naturalmente. Diz o guardião dos dinheiros públicos que o momento não é de achar culpados, no que tem razão, pois os culpados já estão identificados.
Que ao menos a crise energética, que será sentida a partir de junho, e o alto preço que a Nação irá pagar por isso, sirvam para uma tomada de responsabilidade; para que cessem ideais privacionistas, como ocorre no Paraná com relação à Copel; e para que se considere as propostas dos especialistas no sentido do uso racional e inteligente dos recursos convencionais geradores de energia elétrica, e a utilização dos caminhos alternativos para suprir as necessidades nacionais nessa área sem danos ao meio ambiente.





