No Brasil, é preciso que os problemas cheguem ao ponto de exaustão para começarem a ser discutidos. Só agora, diante do fantasma do racionamento de energia elétrica, que se converte em realidade mas ronda o País há muitos anos, os técnicos começam a se debruçar sobre o problema e discutir fórmulas de produzir mais energia e diversificar as fontes geradoras.
Houve muito atraso para esses estudos, e os efeitos dos cortes de energia sobre a economia do País serão desastrosos. O governo descuidou-se desse importante setor, estratégico para o desenvolvimento do País. A alegação clássica sempre foi a escassez de recursos financeiros, mas o que ocorre é a existência de um número excessivo de órgãos regulamentadores dessa área, resultando em falta de diretrizes claras e definidas.
Especialistas do setor, que vêm se manifestando através da imprensa, são de opinião que o governo deve centralizar as atividades desses órgãos e que a Eletrobras assuma o comando, investindo seus recursos na geração de energia exclusivamente e que o governo não os abocanhe para outros fins, como faz atualmente.
Se a sugestão é de que o Estado assuma o papel de investidor, imagine-se, no caso do Paraná, a importância de a Companhia Paranaense de Energia (Copel) permanecer como estatal, ademais porque é uma empresa bem organizada e lucrativa.
Neste momento, em Curitiba, o Conselho Regional de Engenharia, Arquitetura e Agronomia (CREA) está reunindo técnicos e ambientalistas num seminário para discutir a questão da produção de energia elétrica, no Brasil e no mundo, buscando formas de implantação de geradoras com o menor impacto ambiental possível.
A opinião do titular da Promotoria de Defesa do Meio Ambiente, Saint Clair Honorato Santos – publicada por este jornal – já é conhecida. Ele defende o investimento em fontes alternativas de energia, sobretudo a solar, e posiciona-se contra a instalação de mais usinas (hidrelétricas e termelétricas) no Paraná, grandes ou pequenas.
Sua opinião – a mesma dos ambientalistas e destacados técnicos – é que o governo paranaense deve interromper a construção de usinas, para preservar o que ainda resta de suas bacias hidrográficas, pois o Estado deu ‘‘mais do que devia’’ ao País em suprimento de energia.
O Paraná produz mais energia elétrica do que consome e o restante é fornecido para outras regiões. Um contra-senso, portanto, que seja sacrificado com mais inundações de terras agricultáveis, de pontos de atração turística e de sítios arqueológicos, e comprometa a biodiversidade vegetal e animal.
Essas ponderações ocorrem num momento de apreensão nacional, quando a energia escasseia, pela ausência de chuvas suficientes e a consequente queda da capacidade de armazenamento de águas dos rios Grande, Tocantins, São Francisco, Paranaíba e Paraná, que respondem por 61% do volume que toca as usinas.
A verdade é que a falta de atenção governamental para o setor energético levou o País a esta que será a maior crise de sua história pós-industrial, e não há nada que possa ser feito, a curto prazo, para evitar o racionamento. O mais grave é que mesmo as providências para essa desastrada medida estão sendo deixadas para a última hora, porque, a duas semanas do início da redução do consumo, o governo ainda não definiu as regras para o corte de energia.

mockup