Mais não será preciso fazer para comprovar que há corrupção no governo federal, porque a própria manobra que evitou a CPI dos desmandos governamentais sustentou-se na corrupção. A Comissão Parlamentar de Inquérito que se queria, torna-se desnecessária, porque a existência da corrupção ficou agora explícita.
Comprova-se, assim, que o governo não guarda nenhum decoro em adotar e manifestar publicamente os seus métodos. E não é outra a postura dos parlamentares que cedem aos afagos do governo e revertem posições ao menor aceno de alguma vantagem. E essa vantagem já está anunciada e se traduz em cifras, representadas por verbas liberadas aos Estados e municípios pela Caixa Econômica Federal e pelos ministérios, sobretudo estes, que concentram alto volume de recursos incluídos no orçamento por meio de emendas dos parlamentares. Afora, certamente, outros benefícios não revelados. Na contrapartida, as ameaças de FHC de tirar cargos dos parlamentares da base aliada que votarem pela CPI.
A liberação de verbas foi feita nos últimos sete dias, e assim elas farão desaparecer pelo menos 20 assinaturas no requerimento inicial para implantação da CPI, e isto basta para inviabilizá-la. Corrupção para encobrir corrupção, este o nome que se dá a esse esquema governamental, muito bem definido numa faixa ostentada pelas oposições, na Câmara, e que dizia: ‘‘FHC no mar de lama’’. Não importa o fato de que essas verbas se destinam às comunidades representadas pelos parlamentares. O que se questiona é a metodologia adotada pelo governo.
A CPI, certamente, tumultuaria a vida nacional, já atribulada por tantos problemas gerados pelo governo em todos os seus escalões, desde Brasília até as mais remotas prefeituras, mas traria à tona muitas verdades sobre a extensão da corrupção, que envolve relações de figuras do governo entre si e também destas com segmentos da sociedade civil. Mas tais revelações, obviamente, não são de interesse do presidente da República e dos implicados.
O que desencanta a nação é a falta de decoro do chefe do governo – articulador de toda a manobra para abortar a CPI – ao não esconder os seus propósitos nem os métodos que utiliza para alcançá-los. Se o governo retém verbas que pertencem a Estados e municípios com o fim de valer-se delas quando necessário, como agora ocorre, comete uma velhacaria contra o povo. E, de sua vez, os parlamentares estariam usando do artifício da chantagem (no caso a iminência da CPI) para arrancar do governo essas verbas, pouco contando a importância de uma comissão de inquérito para investigar corrupção no governo.
Os Estados que mais receberam benefícios, nessa operação-desmonte, foram justamente os representados por parlamentares que, à última hora, retiraram suas assinaturas do requerimento pró-CPI. A um passe de mágica o governo encontrou recursos financeiros para atender às emendas dos deputados no orçamento, e os parlamentares cederam rapidamente ao aceno. Desnecessário dizer – e apenas en passant – que são tortuosos os caminhos por onde trafegam essas verbas, até chegarem ao destino final. Pelo desgaste da caminhada, muitas chegam bastante mutiladas.
Nessa cirurgia de abortamento atuaram decisivamente figuras proeminentes do sistema legislativo: os senadores Jader Barbalho e Antonio Carlos Magalhães, inimigos numa causa, parceiros em outra. O primeiro, sem a presença da CPI, livra-se de investigações sobre o seu suposto envolvimento em irregularidades na extinta Sudam e no Banco do Estado do Pará, e ACM, ante a ameaça de cassação, não quer complicações e ordenou, de pronto, a quatro de seus deputados baianos, que retirassem as assinaturas da CPI. A costura de acordos, nestas horas, evita transtornos e constrangimentos...

mockup