É inconcebível que a população do Paraná, que tem pago preço alto pela implantação de usinas hidrelétricas em seus domínios, motivando a inundação de vastas áreas agricultáveis, danos à biodiversidade e destruição de sítios arqueológicos - afora o oferecimento, em holocausto, de Sete Quedas - tenha que ser sacrificada com o racionamento de energia elétrica, se as usinas instaladas em seu território produzem mais do que o Estado consome. É uma incoerência que o Paraná, tendo excedentes e vendendo energia para outras regiões do País, permita que o setor produtivo vá ser prejudicado com cortes no fornecimento de luz-e-força.
Dissemos ontem, neste espaço, que existe entre os consumidores (indústria, comércio, residências) o mau hábito do desperdício, mas o que se questiona agora é se devemos - ao menos no período de vigência desses cortes, que deverá ser de seis meses a um ano, ou até que as chuvas reabasteçam os açudes - aceitar passivamente o racionamento.
O Paraná cedeu suas águas e seus espaços para que se instalasse aqui a gigantesca hidrelétrica de Itaipu, um empresa binacional gerida (no Brasil) pelo governo federal, e também permitiu que a CESP, de São Paulo, implantasse três geradoras ao longo do Rio Paranapanema, que divide os dois Estados. O que elas proporcionam de royalties aos municípios paranaenses de sua abrangência territorial não chega a ser expressivo. Os rios são biestaduais, porém essas usinas mais tiram proveito do Paraná do que lhe proporcionam vantagens. No passado era a União que ditava normas e estabelecia os locais onde implantar usinas, e o Estado teve que aceitar.
Já se anuncia que o racionamento - que atingirá o Brasil como um todo a partir do mês que vem e o Paraná depois de agosto - provocará uma redução de R$ 14 bilhões na produção brasileira de bens e serviços. Imagine-se então o volume da perda do Paraná, que é um Estado industrial forte e figura entre os mais desenvolvidos.
Sem contar a hidrelétrica de Itaipu - da qual os Estados do Paraná, Santa Catarina e Rio Grande do Sul absorvem, por força de contrato compulsório, 5% da energia gerada - as demais usinas que abrangem áreas do território paranaense produzem energia suficiente para as necessidades estaduais, e ainda abastecem outras regiões.
As hidrelétricas do Paraná geram 1/4 de toda a energia produzida no Brasil, não sofrem da escassez de água como em outras regiões e têm suficiência em seus reservatórios para manter o sistema funcionando até dezembro, nas circunstâncias atuais. Por isso, escapa da compreensão do senso comum que o Paraná tenha tratamento idêntico aos demais Estados na questão do racionamento. Deveria, pelo menos, caber-lhe essa deferência, pela contribuição que tem dado ao liberar rios e terras para a instalação de algumas usinas que nem paranaenses são.

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