EDITORIAL
O governo levou 40 anos para, afinal, extinguir a Superintendência de Desenvolvimento do Nordeste (Sudene) e a Superintendência de Desenvolvimento da Amazônia (Sudam). Foi necessário que as denúncias de corrupção, notadamente da Sudam, chegassem agora ao ponto de exaustão, para que o governo resolvesse agir.
A Sudene, fundada por idéia de Celso Furtado, em 1959, no governo de Juscelino Kubitschek, tinha objetivos sérios de desenvolver o Nordeste, como o próprio nome do órgão indica. Porém, o grosso de todo o dinheiro destinado a esse projeto, oriundo de incentivos fiscais via Imposto de Renda, caiu em terras áridas. Com a Sudam, criada pelo governo de Castello Branco em 1966, não foi diferente.
Por haver sido implantada poucos anos antes da ditadura militar, foi nesse regime ditatorial que a Sudene começou a desvirtuar os seus propósitos. Não se pode afirmar que as fraudes fossem obras apenas do caciquismo político daquelas regiões, eis que muitas irregularidades tinham origem na Avenida Paulista, em São Paulo.
Dizia-se na época, à boca pequena porque a censura não permitia qualquer crítica aberta ao sistema que de cada milhão lançado à conta desses incentivos, oriundos dessa meca do empresariado nacional, 600 mil ficavam em São Paulo mesmo. Dos restantes que chegavam ao Nordeste, boa parte se diluía e muito pouco sobrava para o seu destino final. E assim foi marchando a Sudene, e depois a Sudam, até porque o regime encontrava forte apoio na classe empresarial dominante, e não poderia dispensá-lo, sob pena de ver ruir-se um de seus fortes sustentáculos.
Nada mudou no primeiro governo democrático pós-ditadura, o do maranhense José Sarney, até que a saturação provocada agora pelos escândalos da Sudam levasse o presidente Fernando Henrique Cardoso a agir. Não pelo escândalo de sobra já conhecido da comunidade governamental mas pela intensidade com que irrompeu, na crista de uma briga política entre dois gigantes, os senadores Antonio Carlos Magalhães e Jader Barbalho. Na linha de fogo está o presidente FHC, que, pela força do cargo, é afinal o responsável por todos os incidentes que ocorrem na República e por eventuais desmandos em órgãos de seu governo.
A verdade é que o Nordeste e a região amazônica pouco se desenvolveram por conta das duas superintendências, que manipularam, nesses longos anos, volumosas somas de dinheiro. Certamente que muitos se beneficiaram, mas não o povo, razão primeira dos bem-intencionados projetos de Celso Furtado/JK e de Castello Branco.
Com a extinção da Sudene e da Sudam, resta saber como as coisas funcionarão doravante. A proposta é criar duas agências governamentais, que não terão o mesmo poder das superintendências extintas e não serão as responsáveis pela aprovação dos projetos. Essa incumbência deverá ficar com o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), sem dúvida uma instituição de indiscutível capacitação técnica.
O presidente FHC conhece as regras do jogo, no que respeita aos políticos, e sabe que não pode descontentar os caciques daquelas regiões, sob pena de sofrer penalizações na votação dos projetos do governo. Pela tradição, não será fácil desvincular da vontade dos políticos a aprovação de projetos de desenvolvimento para aquelas regiões. Importará saber, também, como se processará o repasse das verbas para os projetos a que se destinam. Questões delicadas e preocupantes, tratando-se dos homens públicos que temos, sobretudo porque no fim de semana surgiu a grave denúncia de que o ministro do Desenvolvimento Fernando Bezerra, a quem Sudam e Sudene estavam atreladas, foi um dos beneficiários do sistema através de uma empresa da qual era proprietário.





