De um lado a defesa da propriedade, convencionada pelos povos e definida em leis; de outro, colonos sem terra necessitando de um lugar para instalar-se e produzir, até porque têm direito ao seu pedaço de chão, eis que a terra é um bem da humanidade e suficiente para todos; de outro ainda, o governo retardatário demorando para implantar políticas definidas para a terra e para os que dela se ocupam, sejam os tradicionais agricultores ou os que desejam se instalar (ou se reinstalar) nessa atividade.
Vê-se, engajadas na luta pela delicada questão da terra, pessoas sérias e com propósitos de realmente solucionar o problema dos colonos excluídos do campo. Mas predominam, pelo poder de comando que exercem, ágeis ativistas, com muita disponibilidade de dinheiro e amplos conhecimentos sobre estratégias de invasão, porém sem nenhum compromisso com a terra. Porque não se conhece, deles, nenhum projeto para transformar a propriedade rural em instrumento sustentável de riqueza para os que nela se instalem. O que se conhece é apenas a estratégia da invasão.
O Tribunal Internacional de Crimes do Latifúndio, que acaba de reunir-se em Curitiba, congrega personagens mundiais de destaque e é um poderoso movimento que visa reproduzir, simbolicamente, o que os governos deixam de fazer. É, porém, ainda uma facção, não significando que opere com absoluta imparcialidade, pois não se ocupa da questão da invasão das propriedades, não apenas as improdutivas mas também as produtivas, de que são muitos os exemplos. Estes fatos não podem ser ignorados por um organismo que se rotula de tribunal.
Também não é um tribunal da plenitude da opinião pública, pois não considera uma das partes do processo, que são os proprietários rurais, suas famílias e seus trabalhadores, muitos dos quais tiveram suas terras invadidas e saqueadas e as benfeitorias destruídas. Esses agricultores acabaram expulsos de suas propriedades, perderam a fonte de renda e deixaram sem emprego os roceiros. Não pode, então, o Tribunal dos Crimes do Latifúndio ignorar esses fatos, também caracterizados como crimes.
De qualquer forma, o episódio do julgamento que acaba de realizar-se em Curitiba, embora simbólico, tem forte poder político e é capaz de provocar intensa repercussão, que, com toda certeza, resultará benéfica na continuidade, pelo fato de alertar para o descaso dos governos e da própria sociedade para a questão da terra. Os políticos tendem a agir positivamente diante de repercussões que lhes são contrárias.
Se este não é um tribunal pleno e nem imparcial em seu simbolismo, a verdade é que são muitos os culpados. Entre eles, destacam-se os governantes e os políticos como um todo, que, no Brasil, nunca se preocuparam como uma das maiores fontes de riqueza – a única durável e consistente, pois resiste a milênios – que é a terra.
Inexiste em nosso País uma política agrícola, consistente, que contemple os com-terra, imagine-se então para os sem-terra, estes que já foram varridos de suas propriedades agrícolas ou de seus empregos no campo pela desassistência governamental à lavoura, pela equivocada e inoperante legislação trabalhista para o operário rural, implantada há mais de três décadas e que gerou o êxodo rural, de triste lembrança. Mas inexiste, sobretudo, uma política governamental de preços mínimos que estimule o agricultor e o fixe à terra.
O que tem acontecido, no Brasil, é o abandono das propriedades por parte dos pequenos agricultores, que acabam se alojando na periferia das cidades, perdem o pouco que têm e convertem-se em sem-terra. Paradoxal que o governo assente 100 mil, como anuncia, e desaloje outros 150 mil, pela desatenção à agricultura e por extensão ao homem do campo.
O Tribunal dos Crimes do Latifúndio poderia ser não apenas julgador, mas converter-se em poderoso agente de soluções se também se ocupasse das causas primeiras que geraram esses conflitos e oferecesse propostas para solucioná-las.

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