Mais um Dia do Trabalho transcorre e, no Brasil, vivemos ainda a mentalidade do menosprezo ao trabalhador e fazemos discriminação entre diferentes tipos de trabalho, atribuindo maior destaque àqueles que ocupam funções de maior padrão social e relegando os que exercem atividades braçais e serviços mais pesados e mais sujos. Essa distinção não é apenas um divisor que nivela socialmente as pessoas, na sua relação com o meio, mas que também discrimina quanto ao salário.
Mais rude o tipo de serviço, mais baixa é a remuneração. Um critério perverso, que não leva em conta a importância desse trabalho para o conjunto da sociedade e sim o grau de instrução do trabalhador que o executa. Tomemos exemplos aleatórios como a tarefa de recolher o lixo, as lidas do campo, a atividade braçal da construção civil, cargas e descargas manuais e outros trabalhos pesados que exijam a força bruta do operário.
Essas atividades, fundamentais para a vida e a subsistência das sociedades, são no entanto muito mal pagas e sujeitas a discriminações, até pelo menor poder de força reivindicatória de quem as exerce, na maioria pessoas de baixa instrução escolar. Não se pode dar outro nome a esse delito institucionalizado senão o de crueldade de uma classe social mais poderosa sobre outra mais frágil e desprotegida.
A inexistência de políticas governamentais que promovam o desenvolvimento e gerem empregos contribui ainda mais para a verdadeira chantagem que se faz com aqueles que buscam trabalho e que têm de se contentar com o que encontram e com o quanto lhe desejam pagar. Já nem se fala do elevado percentual de trabalhadores sem registro em carteira, sem amparo previdenciário, sem férias e sem descanso semanal remunerado, chagas sociais ainda não curadas neste país que já comemorou - como de resto todo o mundo - mais de uma centena de Dias do Trabalho. Uma celebração cujos discursos encontraram campo fértil em alguns países mas resultaram estéreis na maioria deles.
A lei constitucional brasileira diz que o salário deve atender a todas as necessidades do homem e à sua família, mas provou-se que apenas boas leis não bastam se falta disposição para executá-las, se vigora uma legislação trabalhista inadequada e desestimuladora do emprego, se o próprio governo tira proveito do salário dos cidadãos, através dos encargos sociais que toma da empresa, correspondentes em valor a outro salário e que poderiam ser repassados para o trabalhador. Repete-se, ano após ano, o surrado chavão de que, no dia da comemoração do trabalho, não há nada a comemorar, ao menos no Brasil.
Esta realidade se perpetuará se o problema não for encarado a partir de suas bases, que são a adoção de políticas públicas que promovam o desenvolvimento - ou, ao menos, não o estanquem - e gerem empregos; a valorização do trabalho, segundo a sua natureza e não pelo nível de instrução escolar de quem o exerce, sob pena de permanecer a punição sobre os que executam serviços rudes e pesados; a adequação da legislação segundo diferentes categorias profissionais, notadamente a do operário rural; posturas mais humanitárias ante o trabalhador; dignificação das tarefas de cada um e, sobretudo, elevação da consciência sobre a importância do trabalho e de quem o executa.

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