EDITORIAL
Com toda certeza, os fatos mais graves que envolvem os governos não são as escutas clandestinas, embora se constitua fato grave que tenham ocorrido ou estejam ocorrendo no Palácio Iguaçu, nas secretarias de Estado e em comitês de partidos políticos, como agora se denuncia.
Mas tudo isto interessa menos aos cidadãos. Saber quem espiona quem, na comunidade palaciana, quem capta confidências de ida e retorno dentro das secretarias, o que se decide num comitê partidário e a quem interessa a interceptação dessas conversas e decisões é menos importante do que conhecer o teor dessas ligações.
Nada de irregular do que um governante confidencia, ao telefone ou em sua sala, deve ser diferente e menos delituoso do que os escândalos que, afinal, acabam aflorando, e aí todos tomam conhecimento de tudo do que foi falado, do que a escuta clandestina captou e dos conchavos cometidos.
O mal não está apenas nos grampos, nas câmeras e microfones escondidos, e sim no que se conversa e se trama dentro dos gabinetes. As escutas clandestinas têm servido a fins escusos porque nenhuma espionagem é honesta mas o povo, gostaria que houvesse câmeras e alto-falantes externos conectados aos gabinetes governamentais, que assim todos ouviriam tudo o que se fala e se faz lá dentro.
Correntes de opinião são favoráveis a que as conversas dos governantes, quando no exercício da função em seus gabinetes, pudessem ser captadas por quem o desejasse, mediante um simples sistema de acesso telefônico ou virtual. Da mesma forma que as sessões do Congresso são transmitidas ao vivo pela tevê embora isto não signifique garantia total de transparência assim deveriam ser as reuniões dos gabinetes, em todas as esferas do Poder.
Se nada de irregular se urdisse nas salas dos governantes e dos burocratas, não haveria interessados em saber o que se trama dentro delas. O mais grave, portanto, não está na existência de escutas clandestinas, mas no que os detentores do poder falam e decidem de tão secreto, e no uso que farão, daquilo que captam, os que se põem a interceptar vozes e imagens.
O que os cidadãos gostariam de saber não é se existe espionagem e contra-espionagem nos círculos do poder, mas quais são as conversas tão reservadas que o povo não possa saber destes que tramam nas sombras, e tão interessantes para os que desejam captá-las clandestinamente.





