EDITORIAL
O voto dos parlamentares deveria ser aberto, sem nada a esconder dos próprios pares e sobretudo do povo. Mas se o sistema de votação secreta foi instituído e transformou-se em norma, toda violação deve ser punida. Até porque são eles os legisladores e deles se espera que cumpram a própria lei que criam. A lei é para todos e os parlamentares não podem ser beneficiados com imunidade.
Se delitos como a violação do painel eletrônico de votação do Senado são passíveis de cassação de mandato, e os senadores Antonio Carlos Magalhães e José Roberto Arruda o violaram, o processo de afastamento dos dois parlamentares deve ser iniciado. Antes que as coisas esfriem e nada mais aconteça, para novo desencanto da população ante a impunidade que cerca os homens públicos.
A confissão do senador Arruda, feita segunda-feira no plenário do Senado, não o exime de culpa e nem revoga a pena, mesmo que ele tenha chorado em seu depoimento e pedido desculpa aos colegas. A punição não tem que ocorrer com sentido de vingança, para satisfazer correntes de oposição e agradar especialmente à cúpula palaciana que deseja, especialmente, ver o senador ACM lançado porta afora mas porque eles cometeram uma falta considerada grave e infringiram norma da Casa.
Ademais, o senador José Roberto Arruda já havia mentido, na semana passada, negando conhecer a lista, objeto da violação, e ao mesmo tempo acusando de caluniadora a ex-diretora do Centro de Processamento de Dados do Senado (Prodasen), Regina Borges, que em depoimento ao Conselho de Ética denunciou os dois parlamentares ACM como mandante e Arruda como agente do processo de violação. Antonio Carlos Magalhães (PFL) era então presidente do Congresso, e Arruda (PSDB) o líder do governo no Senado, portanto duas figuras de alta importância no Parlamento.
A punição, com a cassação, será no mínimo um exemplo aos demais parlamentares; a absolvição, ao contrário, significará um retrocesso e a desmoralização do Senado. Interessante notar que o senador tucano que dias atrás negara seu envolvimento no caso agora inverte o que havia dito, e, com este novo depoimento, incrimina diretamente o senador ACM.
Resta saber até que ponto os senadores têm interesse em cassar o colega Antonio Carlos. Ele sabe demais, solicitou muito, e muito foi solicitado, foi atendido e muito atendeu. Sabe de coisas boas que louvariam um parlamentar e outras que nem tanto... ACM atrelado ao poder é certamente mais seguro, para muitos. Liberto, pode representar perigo e constante ameaça. Não à toa uma considerável legião de parlamentares sempre rezou pelo seu catecismo.





