Cheios de razão, os cidadãos protestam contra a cobrança de juros que lojas e serviços lhes fazem nas compras através do cartão de crédito. Citam principalmente os postos de combustíveis. De sua vez, os comerciantes denunciam que as administradoras dos cartões cobram taxas mensais que chegam a 3,95%, além do aluguel das máquinas processadoras. Ademais, há a demora de mais de 30 dias para que o dinheiro entre em seus caixas. Há todo um processo de especulação financeira nesse percurso. Avolumam-se nas Coordenadorias de Defesa do Consumidor (os Procons) as queixas de pessoas que se consideram lesadas, mas esses órgãos só podem agir mediante denúncias formalizadas.
A existência dos Procons é importante, mas é preciso uma ação mais atuante da sociedade organizada contra a especulação, que está presente nas instituições financeiras, no comércio e em outros segmentos que manipulam o dinheiro. Essa ação deve ser liderada por instituições que têm tido participação atuante na defesa dos cidadãos, como OAB, veículos de comunicação, entidades de classes e, sobretudo, consumidores, que têm o poder de protestar e negar-se a comprar se perceberem que estão sendo lesados – e na maioria dos casos estão.
Apesar de vivermos uma certa estabilidade da moeda, a cultura inflacionária ainda viceja, porque persiste a memória do passado recente, quando o índice da inflação chegou ao patamar de 80% ao mês, no final do governo de José Sarney. Mas não apenas isto e também a especulação consciente, calculada, dos bancos, financiadoras, empresas que especulam no desconto de títulos, para não falar da agiotagem particular, que corre solta.
O comércio é outro vilão, pois embute juros elevados nas vendas a prazo, e nisto não é muito diferente dos bancos. O consumidor não faz cálculos, mas bastará verificar o quanto pagaria por um bem à vista e quanto paga, no final, em prestações. Não é por acaso que a maioria dos estabelecimentos comerciais prefere que o cliente compre a prazo, porque não se contenta apenas com o lucro sobre as vendas mas faz também especulação financeira.
Vivemos no Brasil com moedas de diferentes valores. O que os bancos pagam aos aplicadores da caderneta de poupança está hoje em 0,65%, mas o juro de cheque especial nesses mesmos estabelecimentos é de 7%, e algumas operações chegam a quase o dobro disto. Então, o dinheiro dos cidadãos tem 6 vezes menor valor que o dos bancos. A inflação oficial, apregoada como de 1% ao mês, em média, só serve de referencial quando a instituição financeira vai pagar os rendimentos da caderneta de poupança e outras aplicações, mas não para os bancos quando emprestam dinheiro.
O que falta é uma tomada de consciência de parte desses segmentos e, sobretudo, o próprio consumidor precaver-se e defender-se, não apenas através dos Procons e outros caminhos, mas se organizando, munindo-se de informações sobre os custos reais do que deseja comprar, e saber dizer não, quando necessário. Se os consumidores se valerem desse poder que têm, os especuladores terão que recuar, para não capitular.

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