Embora a imprensa tenha dado pouco destaque ao fato, quem sabe já inoculada ante a frequência de acusações e contra-acusações entre os Poderes que nos governam, é grave o fato de o próprio presidente da República declarar publicamente que faltam ao Congresso Nacional condições – entenda-se morais – de instalar uma CPI para apurar denúncias de corrupção em seu governo.
Referindo-se à violação do painel de votações do Senado e falando em rede nacional pela TV Globo, o presidente fez uma verdadeira acusação contra o Poder Legislativo, ao dizer que, antes de fazer qualquer investigação sobre seu governo, primeiro o Congresso resolva seus problemas internos e arrume a casa.
Foi clara a posição do presidente ao lançar dúvidas sobre a legitimidade do Congresso (para criar a CPI contra o governo), se procedimentos daquela Casa também estão envolvidos em escândalo e investigação. Por tratar-se do presidente da República, sua afirmação assume gravidade, por negar autenticidade ao Congresso e desmoralizar publicamente esse Poder.
Se a palavra do chefe do governo deve merecer fé pública, pela própria autoridade que emana do cargo, depreende-se, do que disse, que o Congresso Nacional já não tem autoridade para impor-se perante a Nação nem está qualificado para exercer uma de suas atribuições, que é policiar os atos do Poder Executivo.
Ou então não se deve dar crédito a nada que os governantes declarem, mesmo que se trate do supremo mandatário da República. O que se discute, no caso, não é se o presidente FHC está credenciado para essa investida contra o Poder Legislativo quando 18 órgãos de seu governo estão na mira de investigações, e sim a execração pública a que submete um dos Poderes. Também não cabe discutir agora o nível de conceito em que a população brasileira situa a maioria dos seus representantes no Congresso. O que a Nação não desejaria era constatar que as próprias instituições governamentais já não depositam crédito em si próprias.
E se esta é a realidade, atestada pela palavra do próprio presidente, não devem os governantes esperar que os cidadãos lhes devotem respeito. Se o alvo dos ataques deixa de ser a figura do político, do governante ou do magistrado, para ser a própria instituição, então este é um momento de gravidade para o regime. Ou – repetindo – não se deve dar crédito à palavra dos governantes, e então será ainda mais caótica a situação política de um povo, porque sem a confiabilidade nos governantes não haverá sustentação de governabilidade.

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