Editorial
Membros do Congresso Nacional estão vindo a público enfatizar que eles e a instituição não têm culpa pela crise administrativa e financeira que ocorre em vários Estados da federação, e que nas últimas semanas produziu o levante, por motivos salariais, de forças policiais e policiais-militares que deveriam estar sob o comando dos respectivos governos estaduais. Afirmam que, se culpa existe, é do Executivo, a quem cabe pagar salários. A manifestação dos parlamentares tem por objetivo desfazer o mau conceito dominante de que tudo está acontecendo porque o Congresso não aprova as reformas estruturais pedidas e encaminhadas pelo Governo.
O hábito de buscar culpados, que vem da tradição religiosa ocidental e encontra terreno fértil em sistemas incompetentes, só tem valor prático quando ao mesmo tempo se tenta corrigir os erros e a incompetência. Mas, mais importante do que isso é buscar soluções reais para os problemas enfrentados. Negativas ou acusações como forma de defesa não levam a parte alguma, principalmente quando se observa realidade diferente da que é exposta pelos que tentam se eximir de responsabilidades.
Vale lembrar que o Legislativo reconquistou, após a redemocratização e, em especial, com a nova Constituição, muitos poderes que havia perdido ao longo do período ditatorial. Se na época do totalitarismo o Congresso foi colocado em posição subalterna, o mesmo não acontece agora. As atribuições do Legislativo foram efetivamente restauradas e isto trouxe, como consequência, novas responsabilidades para este Poder na função de governo.
Usar de subterfúgios para não assumir a parcela que lhe cabe nas dificuldades que o País enfrenta não vai melhorar a imagem dos parlamentares e dos políticos em geral perante a opinião pública. Para mudar isto é preciso trabalhar em outra linha de ação, enfrentar os desafios, cumprir os compromissos e só tomar decisões em função do interesse público.
O dever dos congressistas, hoje, não é só debater, melhorar e aprovar as reformas estruturais que a nação reclama, mas de posicionar-se claramente diante da situação e do futuro que todos almejamos para o Brasil. Se querem um país eternamente em dificuldades e com injustiças sociais gritantes, então basta deixar como está e não fazer nada - como agora, aliás. Mas se não querem isto, é preciso encarar de frente os problemas e o custo político das suas soluções.
As futricas que têm acompanhado praticamente toda a tramitação das reformas constitucionais - que são atribuição exclusiva do Congresso - são bem sintomáticas. As negociatas que ocorrem a cada votação de interesse do Executivo já cansaram a população e servem, apenas, para piorar a imagem dos políticos.
Mais grave ainda é sentir que, aparentemente, alguns membros do Congresso perderam até contato com a realidade. O balanço feito pelo presidente do Senado sobre o trabalho no período de convocação extraordinária do Congresso é risível. O que o senador Antônio Carlos Magalhães apresentou como resultado do trabalho ingente - e muito bem pago - durante o período de férias de inverno, não confere com o que se viu no acompanhamento direto da atividade parlamentar. É preciso que os parlamentares percebam que o Brasil é hoje bem diferente do curral eleitoral da Velha República. Há plena divulgação do que se passa, a população está muito bem informada e a consciência crítica coletiva está muito desenvolvida. Não há como iludir quem está vendo, ouvindo e lendo diariamente o que se passa em Brasília e em todo o País.
Precisamos de mais trabalho e disposição coerente para resolver problemas. Esta semana, o Congresso estará de recesso, isto é, em férias de inverno - mais uma das coisas que o povo continua a não aceitar no sistema. Espera-se que ao retomar as atividades, na próxima segunda-feira, assuma a verdadeira posição que pode garantir a mudança na imagem que busca junto à opinião pública. Que faça deste segundo semestre um período de atividade plena, de encaminhamento de soluções, de resolução de problemas, assumindo efetivamente seu papel na gestão do estado. Sem isto, imputar a culpa pelo que não faz a outrem simplesmente não vale nada.





