Onde há dinheiro público sempre existe alguma forma de corrupção, grave ou branda, ou ao menos grande possibilidade de que ocorra. E quando, dentro da esfera política, uma investigação se instala, ardis de toda ordem acontecem dentro do próprio processo investigatório, colocando sob suspeita a própria investigação.
Isto ocorreu agora, com a decisão do PMDB no Senado de liberar dois membros do partido para votarem a favor da criação da CPI para investigar denúncias de corrupção em órgãos do governo federal. Foram duas assinaturas estratégicas, suficientes para dar o número necessário à instalação da comissão investigadora.
O governo declara que essa CPI é inconstitucional e já iniciou manobras para derrubá-la, porém, ao menos no Senado, ela existe. Agora a batalha dos que querem investigar o governo será pressionar a Câmara dos Deputados para viabilizar a CPI mista.
Necessária que seja, ao menos a CPI do Senado vem maculada por suspeitas de que ela surge - pelo beneplácito do PMDB - para desviar a atenção aos ataques ao senador Jader Barbalho, membro do partido e presidente do Congresso Nacional. Isto acontece no momento em que a Superintendência do Desenvolvimento da Amazônia (Sudam) está sob intervenção, com a prisão de 16 envolvidos, entre eles três que teriam ligações com Barbalho.
Os indicativos são de que o interesse do PMDB em criar a CPI não é propriamente uma causa cívica, mas o oportunismo de embaralhar a crise política e direcionar as investigações apenas contra o governo e contra o senador Antonio Carlos Magalhães, porque foi ACM quem levantou as denúncias contra a Sudam, visando, naturalmente, atingir seu arquiinimigo Jader Barbalho. Nada, também aí, de espírito público.
O poder do PMDB em determinar rumos para a CPI é porque poderá conduzir o processo de forma a indicar o relator ou o presidente da Comissão Parlamentar de Inquérito, e assim tudo ficará no círculo doméstico. Não foi à toa que o partido manobrou para alcançar a 27ª assinatura e, naturalmente, festejou o acontecimento.
De qualquer forma, independente da Sudam - pois são 18 as áreas do governo sob suspeita de corrupção - é necessária a implantação da CPI. Lamentável que nesta turbulência política os parlamentares se ocupem apenas dessas investigações e deixem de examinar e discutir projetos de relevância que tramitam pelas duas casas do Congresso ou estão engavetados.
Enquanto isto ocorre, outra revelação deixa a nação estarrecida e cada vez mais descrente das instituições. É o depoimento da ex-diretora do Centro de Processamento de Dados do Senado apontando os senadores José Roberto Arruda (PSDB-DF), líder do governo no Senado, e Antonio Carlos Magalhães (PFL-BA) como envolvidos na violação do painel eletrônico da Casa, na ocasião em que foi cassado o senador Luiz Estevão (PMDB-DF). Em sua declaração, prestada à Comissão de Inquérito do Painel Eletrônico do Senado, ela confessou ter recebido ordens do senador Arruda para modificar o sistema eletrônico e obter a lista indicando como cada senador havia votado.
A ser verdadeira a denúncia da depoente, os dois senadores cometeram crime de violação, passível inclusive de cassação de mandatos. O mais grave, porém, é o fim a que se destinava o conhecimento da lista dos votantes por parte do líder do governo e do presidente do Senado, algo ainda não decifrado mas que não seria mera curiosidade ou simples domínio da informação. Uma resposta que os cidadãos gostariam de conhecer.

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