EDITORIAL
A discussão sobre a privatização da Copel amplia-se dia a dia pelas contribuições advindas dos mais diversos segmentos da sociedade, demonstrando o inequívoco interesse da população sobre o tema. Há um aspecto da maior relevância, já abordado por muitos dos que discutem o assunto, mas sem que tenha sido apontado o efeito econômico desta questão. Trata-se da ameaça da falta de energia. Se vivemos em um regime de mercado é obvio que faltando energia - o que parece ser muito mais provável do que uma simples conjectura - os preços do quilowatt subirão, em escala inimaginável, conforme seja o tamanho do gap energético. Como os investimentos em novas usinas não estão definidos e tampouco existem suficientes projetos aprovados para isso, sem esquecer que é de cinco a oito anos o tempo necessário para a construção de uma usina de porte médio para grande, é evidente que teremos problemas de racionamento com a consequente alta de preços para patamares imprevisíveis nos dias de hoje.
Outro aspecto relevante e, ao que parece, não considerado ao se fixar o preço de venda das usinas da Copel é que, além do investimento feito e sua eventual desvalorização pelo tempo de vida útil restante, há que se levar em conta o valor do investimento novo que seria necessário para se construir algo igual. A diferença entre o investimento feito e o investimento novo, caso se fosse construir hoje uma usina igual a que se pretende vender, agrega valor. Ou seja, se por um lado o tempo de uso causa desgaste desvalorizando o bem a ser vendido, a diferença para maior em relação a um investimento atual acarreta valorização.
Estas duas questões, consideradas adequadamente, colocarão, com certeza, o preço de venda de todas as companhias de energia elétrica em patamares muito superiores aos que estão sendo cogitados pelos responsáveis pelo processo de privatização.
As questões colocadas acima, ou seja, a previsível falta de energia, a consequente alta dos preços para patamares imprevisíveis, a falta de uma política para o setor, a falta de definição da nova matriz energética, o longo prazo necessário para cobrir o gap energético gerando crises de abastecimento recomendam muita cautela por parte das autoridades na tomada da decisão correta sobre problema de tal magnitude. Basta de arroubos autoritários tais como o de amarrar o real ao dólar sem as condições ou os pré-requisitos necessários satisfeitos; são propostas imaturas impostas por uma equipe impúbere na tomada de decisões que acarretam grandes prejuízos ao País. É praticamente certo que nossas autoridades maiores, para se livrarem dos desgastes da falta de energia - culpando a Argentina ou a Ásia pela crise - colocarão em prática uma política econômica de maior austeridade para inibir o crescimento do PIB, reduzindo por este artifício o crescimento da demanda de energia. Mas qual será o custo social desta política? Novamente, bilhões de dólares serão desperdiçados.
O presente momento exige muita cautela pelas dificuldades em se projetar uma correta avaliação sobre as consequências do gap energético e o princípio da prudência recomenda que não se coloque à venda patrimônio tão valioso quanto o das companhias de energia elétrica. Como nos exemplos acima, a venda acarretará bilhões de dólares de prejuízos para o País, tornando-se pois um crime de lesa-pátria.
A certeza da impunidade pelo cometimento de tais barbaridades tem permitido permite que elas sejam concretizadas.





