Editorial
No início de nova campanha anual de arrecadação de fundos para atendimento às crianças, trabalho desenvolvido sob a égide da Unicef e com a participação de muitos setores da comunidade, inclusive artistas de grande apelo popular, a entidade anuncia que a mortalidade infantil se reduziu substancialmente no continente americano entre 1980 e 1995. Para efeitos de estatística, considera-se mortalidade infantil a que se registra antes do quinto ano de vida. Conforme os dados divulgados pela Unicef na semana passada, o total de 69 mortes por mil crianças nascidas vivas em 1980 caiu para 34 óbitos por mil em 1995. Inegavelmente, um número alentador, que atesta o resultado de políticas direcionadas para melhorar a qualidade de vida dos povos no continente.
Mas, estes números ainda estão longe do que se deve esperar, quando comparados com o conhecimento adquirido pela humanidade neste século, a evolução em vários setores da medicina, inclusive das técnicas de prevenção, e o maior grau de informação de massa, através dos jornais, do rádio e da televisão. Ainda há, no continente americano, crianças que morrem de doenças triviais que já poderiam estar erradicadas por simples campanhas de vacinação. Isto sem contar o elevado número de óbitos que ainda se registra por toda parte em razão da fome, ignorância e miséria.
Se são satisfatórios como médias globais, os números ainda são trágicos nos vastos grotões da América do Sul, em quase toda a América Central e em parte não pequena da América do Norte, principalmente entre os negros. O rico e próspero Canadá, informa a Unicef, é o país com o menor índice de mortalidade infantil nas três Américas, com oito óbitos para cada mil crianças nascidas vivas. Em segundo lugar vêm os Estados Unidos e a pequena Cuba, ambos com 10 mortes para cada mil crianças.
A situação nos dois primeiros países citados é que puxa a média de mortes para baixo. O Brasil ocupa o quinto lugar, a partir do fim da fila! O último colocado é o paupérrimo Haiti, com 134 mortes por mil nascidos vivos. Depois, na relação inversa vêm a Bolívia, com 105, Guatemala e Nicarágua, com 60, e o Brasil, com 53.
A única vantagem brasileira é que a média nacional é inferior à mundial. Em 1995, era de 89 crianças mortas antes dos cinco anos, a cada mil nascidas vivas. Mas não deve ser um grande consolo, quando se sabe das terríveis condições de vida em continentes como a África e partes da Ásia, e também ao se levar em conta as dificuldades dos países da velha Europa Oriental, que enfrenta problemas econômicos, sociais e políticos muito graves, com a derrocada do sistema comunista.
O Brasil, sem crises políticas, sem revoluções sangrentas, sem problemas climáticos, só tem uma justificativa para estar nesta dura situação: o descaso político, a falta de vontade real de resolver os problemas econômicos e sociais que afligem a população e matam seus filhos.
Nem é preciso ir muito longe para perceber a falta de vontade de garantir, ao menos, o direito à vida das crianças que nascem no País: São Paulo, o mais progressista estado da República, enfrenta nestes dias um grave surto de sarampo, doença que mata - ainda mais quando atinge crianças subnutridas - e que deveria estar erradicada pela vacinação há no mínimo 30 anos! É o retrato de um país que ainda mostra sérias deficiências em oferecer à sua população o mínimo exigível a qualquer nação civilizada: a imunização de suas crianças através da vacinação.
A solução do problema não é só a vacinação, obviamente. Mas se pelo menos a prevenção fosse levada a sério pelo Ministério da Fazenda - sim, da Fazenda e de toda a área econômica do Governo federal, dos governos estaduais e dos governos mnunicipais -, este imenso país poderia chegar perto da pequeníssima Cuba naquilo que é o maior patrimônio de qualquer país: a vida biológica e espiritual de seus filhos, a alegria de construir o futuro.





