EDITORIAL
Num país em dificuldades, com alto índice de desemprego e problemas sociais sem conta, os governos precisam amoldar-se à realidade e buscar caminhos de solução e não agravar ainda mais a situação. O corte de água e luz é uma questão que, neste momento, o Paraná discute, porque a Assembléia Legislativa acaba de aprovar projeto de lei que proíbe a suspensão desses serviços durante 90 dias após o vencimento.
O governador ainda examinará o projeto, podendo aprová-lo ou rejeitá-lo, mas o bom senso recomenda atenção especial do chefe do governo, porque não é justo cortar da pessoa um bem que é essencial à vida, como a água. Deveria ser uma lei universal a garantia do fornecimento desse líquido, que não é um bem do Estado mas da humanidade, não um produto fabricado pelo homem mas um recurso da natureza.
Com relação à energia elétrica, a humanidade viveu milhões de anos sem ela e só populações relativamente recentes vieram conhecê-la e dela servir-se. Mas hoje os tempos são outros e a civilização dos nossos dias é totalmente dependente do uso da luz e da força elétricas, ou perecerá. Porque tudo se move por essa força motriz.
Se a energia elétrica é vital e não deve, por exemplo, ser cortada nos hospitais, deve ser igualmente vital para todas os sistemas e todas as pessoas, doentes ou saudáveis. Porque é da humanidade que se trata, não de objetos. O desemprego, que corta o ganho e impede o pagamento da luz e da água, é também uma doença social. Deve o Estado, isto sim, prover com a parte que lhe cabe o cidadão e não atingi-lo com um golpe ainda mais duro, que é cortar-lhe a fonte da vida e o benefício da eletricidade.
Se dirigentes da Sanepar afirmam que essa proteção da lei, por 90 dias, estimulará a inadimplência, é bom lembrar que a inadimplência já está instalada para aqueles que não têm meios de pagar a água e a luz. Impossibilidade de pagamento não é calote, mas problema social. Punir quem já está punido é uma medida perversa e fere a dignidade humana. Então o corte, para os que o defendem, passa a ser não uma solução econômica para as empresas fornecedoras, mas apenas uma medida punidora.
Energia elétrica existe em abundância no Paraná e a população pagou um preço alto por ela, com a implantação de usinas geradoras e a consequente inundação de extensas áreas de terras agricultáveis, de belos recantos turísticos e de riquíssimos bens da natureza. A sociedade arcou com os custos sociais e será uma crueldade subtrair de alguém em dificuldade um benefício que deve ser assegurado a todos. Não se trata de estimular desleixos, embora alguns casos de aproveitadores possam acontecer, porém isso nunca será regra e sim exceção. O Estado deve ser um agente de soluções e não um complicador.
No caso da água, mais razões ainda para não fazer cortes, porque felizmente ela existe em abundância no Paraná. Fechar as torneiras dos inadimplentes não aumentará o volume da represa, mas se tal ocorrer será mais um sinal da abundância. Não se pode negar o que existe com suficiência para todos. Se a Sanepar já deixa de receber em função da inadimplência de muitos, o simples corte não modificará essa situação.
Ademais, o próprio Estado é um grande devedor e não gostaria de ver os fornecedores e credores impondo-lhe sanções que viessem a impedir o funcionamento da máquina administrativa. A situação dos que se vêem privados da água e da luz - porque, temporariamente, não dispõem de meios para pagar a conta - não é um calote de supostos maus pagadores, mas um problema social pelo qual o sistema governamental tem grande parcela de culpa e de responsabilidade.





