Editorial
Quando um protesto contra o Governo, anunciado como reflexo do descontentamento maciço do povo com o desempenho de um plano econômico, não consegue o sucesso previsto, pode-se afirmar que o Governo está certo e os descontentes errados? À primeira vista, sim, mas os fatos sociais são mais complexos do que parecem à primeira vista. E a leitura apressada da situação, por parte, principalmente, daqueles que eram visados, os governantes, é um risco que pode ter consequências desagradáveis.
A pequena presença de manifestantes, em pontos isolados do País, depois de uma farta convocação dos partidos de oposição e de grupos como a CUT e o MST, o Governo pode concluir que a grande maioria está satisfeita com os rumos da situação. Isto é verdade - mas, não é toda a verdade. Existe insatisfação - que não é isolada, como foram os bloqueios nas estradas -, há graves problemas não resolvidos afetando a vida do povo. Além de faltarem empregos novos para os trabalhadores emergentes, há grande desemprego para quem já estava no mercado de trabalho, as condições de atendimento às necessidades básicas dos brasileiros - obrigação constitucional do Estado - continuam precárias, a falência do sistema de segurança - também obrigação precípua do Estado - é uma realidade.
No entanto, a parcela maior da população já adquiriu suficiente consciência para saber que o caminho para manifestar seu descontentamento não é o de tentar parar o País, assim como já adquiriu a percepção sobre o oportunismo de alguns que tentam canalizar a insatisfação em benefício próprio.
São muitos e graves os problemas do País. Boa parte deles decorre da inação do Governo, da omissão do Congresso, da falta de vontade política de quem pode e deve resolver as dificuldades com que o povo se defronta. Mas a grande maioria, aquela que efetivamente se mantém silenciosa, que procura resolver seus problemas de modo ordeiro e sem confusão, percebe quando querem convertê-la em simples massa de manobra.
Não é outra a impressão que fica diante do anunciado protesto que pretendia paralisar pelo menos 16 Estados brasileiros. Ademais, a falta de credibilidade do poder político não alcança apenas, hoje, os membros dos partidos que apóiam o Governo. Também a oposição perdeu muito da confiança junto ao povo que, assim, se manteve alheio ao convite para o (previsto) gigantesco protesto.
O fracasso na manifestação convocada pelas oposições, políticas ou classistas, não pode levar o Executivo (e menos ainda o Legislativo) a considerar que a população está plenamente satisfeita com a situação e com os rumos da ação governamental. É importante que se faça a leitura correta da situação, que é, na verdade, muito simples: o povo está preocupado, enfrenta dificuldades, quer que o Governo tome medidas profundas para ajudar a resolvê-las, angustia-se com a inação do Executivo e do Legislativo, mas sabe que o caminho para deslanchar as soluções não é parar o Brasil.
O que se quer, aliás, não é parar, mas ir para a frente. Há necessidade de uma ação concreta dos políticos, é preciso que trabalhem com firmeza e encaminhem soluções objetivas para os problemas econômicos e sociais. A inflação está quase vencida, o que pareceu impossível durante décadas, mas isto só não basta.
Os brasileiros mudaram muito nas últimas décadas de dificuldades, desde que o País mergulhou no caos e na recessão, nos anos 80, até que, afinal, começou a sair da catastrófica situação econômica nestes últimos anos, desde o lançamento do Plano Real. O sofrimento, a miséria, a falta de perspectivas, a ameaça de perder tudo de um momento para outro, isto deu ao povo um amadurecimento que se percebe pelas mudanças que conseguiu operar através do voto e pela participação que tem tido no sucesso do plano de estabilização.
Por isso o povo não se deixa mais ser usado como bucha de canhão. E isto, ironicamente, é uma obra das oposições nas últimas duas décadas. O novo nível de consciência política do povo brasileiro é um traço que as oposições ajudaram a riscar na testa e na cara de todos, jovens ou não, após anos de ditadura e resistência ao arbítrio e à opressão. As oposições estão, hoje, diante de algo que elas mesmas ajudaram a criar e o futuro político delas vai depender de como se fará o ajuste entre as idéias - justas - e a nova prática que a nova consciência impõe.
Na realidade, tanto Governo como oposição têm motivos para tirar importantes lições deste protesto frustrado. Se os responsáveis pela administração precisam entender que são obrigados a agir com objetividade e celeridade em suas funções, os outros devem também revisar não apenas seu discurso, mas sua prática. O povo - e pouco lembrada mas vital maioria silenciosa - quer somente que lhe garantam condições dignas para viver, trabalhar e construir um futuro melhor. E, se possível, que os governos não o atrapalhem. Não é muito, mas para o homem comum, que é maioria, é o suficiente.





