O presidente Fernando Henrique Cardoso nega que haja corrupção em seu governo mas, ironicamente, vale-se de expedientes de corrupção para impedir a criação de uma CPI que o investigue. Se corrupção não havia, agora ela se revela claramente, e em mão dupla, porque os parlamentares mudaram posições muito rapidamente ante os ‘‘argumentos’’ do Planalto.
O governo nem faz questão de esconder as articulações que vinha empreendendo junto a deputados e senadores para evitar a CPI, acenando contemplá-los com vantagens e penalizá-los com desvantagens. Tanto fez que conseguiu, e outro nome não se dá a isto senão corrupção.
Como consta no dicionário, corrupção quer dizer ação ou efeito de corromper, decomposição, depravação, desmoralização, devassidão, sedução, suborno. Os agentes e pacientes envolvidos no processo que ora se urdiu em Brasília enquadram-se perfeitamente dentro de vários desses itens, notadamente no último, o do suborno.
Os líderes do governo falam pela palavra oficial, e um deles foi direto ao ponto, sem nada esconder: ‘‘Aplicamos um tratamento agressivo.’’ E emenda: ‘‘...mas o câncer pode voltar’’. Não bastasse a desfaçatez, qualifica de câncer o que seria uma natural investigação para apurar denúncias de corrupção em escalões do governo.
Não se discute se essa CPI seria inconstitucional, por tratar de ‘‘fatos diversos e acusações vagas’’, como argumentaram porta-vozes do governo. O que desencanta é a constatação de que mecanismos escusos são usados pelo governo sem o menor decoro, e alguns deputados subestimam a inteligência do povo ao afirmar que mudaram de voto - pró-governo - ‘‘depois de muita reflexão’’ e porque um ‘‘inquérito, agora, contra o governo federal, paralisaria o País’’.
Já se sabe por que houve tal ‘‘reflexão’’, e também se sabe que investigação e punição de culpados, ao contrário de paralisar a nação, conferem-lhe segurança e estabelecem a confiança nas instituições. O que intranquiliza e desestabiliza um povo é a existência de corrupção nos governos, os demandos, a impunidade, a sensação de impotência ante tanto arbítrio e procedimentos como este a que agora assistimos em Brasília, com os Poderes autocorrompendo-se. Diante de câmeras e microfones e ao vivo e em cores.
Qualquer semelhança com fatos que estão acontecendo agora no Paraná não é mera coincidência. Há que se aproveitar a oportunidade de dizê-lo, porque também aqui o governo estadual vale-se de idêntico expediente para seduzir os deputados a apoiarem a venda da Companhia Paranaense de Energia (Copel), contrariando todas as correntes de opinião e a vontade popular.

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