Editorial
A previsão contida no trabalho O Brasil na virada do milênio, de autoria do presidente do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), Fernando Rezende, segundo a qual o País pode viver um novo milagre econômico nos próximos anos, provoca reações controvertidas. A primeira é algo negativa, até porque a lembrança do famoso milagre dos anos 70 traz algumas conotações falhas. Depois da fase de excelente desempenho econômico, entre o final dos anos 60 e início da década de 70, veio a crise recessiva, que se acentuou na década seguinte, provocando visão crítica sobre o que havia de fato acontecido. Para complicar a equação, tudo ocorreu no período ditatorial, quando era impossível a crítica, o que pode dar suporte aos que encaram toda a questão como grande simulacro. Finalmente, o próprio nome, milagre econômico, traz a impressão de algo místico, alguma coisa que surgiu espontaneamente, vinda não se sabe de onde, o que desmoraliza muito o assunto.
É necessário concordar que de fato o Brasil viveu naquela época um importante surto de crescimento econômico. Mas não foi um milagre do tipo misterioso e sim resultado de uma série de fatores muito bem estruturados. O governo totalitário, com todos os seus erros, produziu algumas coisas positivas. Criou, por exemplo, forte poupança interna, através de alguns interessantes instrumentos, como o FGTS, além de grande estímulo à poupança pessoal. Aproveitando também fase especial da economia mundial, e a credibilidade que contava, o governo obteve empréstimos externos. Estes recursos garantiram obras de importância, inclusive todo um sistema de comunicação que levou o País à modernidade em poucos anos.
O que ocorreu depois é que acabou com o sonho e a impressão do milagre. O choque do petróleo, a alta dos juros internacionais e a crise econômica mundial acabaram atingindo o Brasil com fúria, levando a toda a dificuldade que foi se configurando no final dos anos 70, se agravou nos anos 80 e só agora parece começar a se dissipar. E é inegável que a boa previsão do titular do Ipea se baseia precisamente nos fatores atuais da economia brasileira, praticamente libertados de muitas das mazelas que quase levaram o País ao caos. Há efetivas razões para se confiar em melhoria muito grande na situação econômica, o que propiciaria crescimento na faixa dos 7% ou mais, ao ano, produzindo o que se convencionou chamar de milagre, embora tudo seja resultante de trabalho objetivo e muito bem direcionado.
As condições atuais são diferentes das ocorridas à época da ditadura. Há um projeto muito bem estruturado em andamento, um plano que não trouxe os vícios do passado. O Plano Real é o que se poderia considerar um projeto econômico permanente. Até agora, tem mostrado sua eficácia. E se não está melhor, isto decorre da falta das reformas estruturais, que estão demorando mais que o previsto. Todavia, é interessante rememorar comentário feito pelo ex-presidente do Banco Central, Afonso Celso Pastore, em recente entrevista à TV Cultura, quando destacou o fato de o plano ser gradual. A única questão levantada pelo sr. Pastore foi justamente a lentidão nas reformas.
Na sua previsão, o titular do Ipea vai ao ponto ao prever um milagre econômico desde que se concluam as reformas em andamento e que persista o atual espírito que orienta o povo. Enfim, não um milagre provocado por forças externas, mas sim pelos próprios brasileiros.





