EDITORIAL
Ferido em sua vaidade ante a iminência de ser criada a Comissão Parlamentar de Inquérito para investigar denúncias de corrupção em seu governo, o presidente Fernando Henrique Cardoso manifesta sintomas de fragilidade e declara que está no seu limite físico. Espera com isto, talvez, despertar uma comoção nacional, o que com toda certeza não irá ocorrer, pela simples razão de que é baixíssimo o índice de aceitação popular ao seu estilo de governo. Ao contrário, as vozes das ruas estão fazendo pilhéria e sugerindo que, se ele está no limite, que renuncie.
E o limite do povo? Teria alguma vez o presidente se preocupado com isto? Certamente que não, pois em seis anos de seu mandato FHC não visitou o Brasil para saber o que ocorre no país que governa. Fez, porém, um infindável número de viagens ao exterior, para receber comendas e aplausos, porque, lá fora, poucos sabem o que se passa aqui nos trópicos.
Seria compreensível a exaustão presidencial se os motivos disso fossem eventuais batalhas pela defesa das causas nacionais e aí a nação marcharia com ele mas a razão é apenas o inconformismo do presidente em imaginar que possa ser implantada uma CPI para investigar denúncias de corrupção em escalões de seu governo. O limite físico de FHC está ocorrendo apenas por uma questão intestina, que se circunscreve à esfera do próprio poder.
De um lado o presidente da República manifestando a sua fraqueza, de outro o secretário-geral da Presidência, ministro Aloysio Nunes Ferreira, afirmando que a crise é grave, referindo-se ao conflito político do momento. Deveriam saber, o presidente e o ministro, que a crise no Brasil aqui de baixo é muito mais grave, e motivada em grande parte pela tirania da política econômica do governo, que impede o desenvolvimento e aprisiona o País no imobilismo.
O secretário-geral da Presidência manifesta-se preocupado com uma crise de governabilidade, mas convenhamos que deve estar muito mal a estrutura do governo se pode sucumbir ante a simples iminência de se criar uma CPI para investigá-lo. E FHC desaponta mais uma vez os brasileiros ao declarar que uma investigação (sobre seu governo) criaria uma falsa impressão de mar de lama e macularia a imagem do Brasil no exterior.
E qual é a imagem do Brasil lá fora? Infelizmente para nós, a pior possível. Então, não se sabe bem que imagem o presidente da República quer salvar, se nunca antes se preocupou com isto. A imagem a que se refere não deve ser, precisamente, a do Brasil, mas a dele próprio, porque pelas suas andanças tornou-se mais conhecido no exterior que o país que governa. Deveria o presidente preocupar-se, isto sim, com a imagem do Brasil dentro do próprio Brasil e com a imagem dele perante os brasileiros.
A crise de Brasília, que leva o presidente ao limite físico, é apenas política, mas o limite físico de milhões de brasileiros é motivado por algo muito mais grave, que é o desemprego, a fome, o desespero, a falta de segurança, de saúde e de moradia decente, a criminalidade, a desagregação familiar e, mais grave ainda, a perda da identidade própria desses excluídos. Esta a crise e a imagem do Brasil que o presidente da República e os seus poderosos ministros-de-gabinete desconhecem.





