Editorial
Os combustíveis e a inflação
Em meados de setembro, quando já se podia antecipar que a inflação de 1996 talvez ficasse abaixo de dois dígitos, uma ressalva era feita: tudo dependeria da política de preços e tarifas do governo, notadamente sobre os combustíveis. E como até agora as tarifas foram mantidas sem reajuste, o mesmo ocorrendo com os preços de álcool, gasolina e diesel, o que se previa não só aconteceu mas foi além e as projeções neste final de ano apontam para uma taxa que deve ficar em torno dos 9%, o nível mais baixo em 40 anos.
Neste quadro, o anúncio do reajuste dos combustíveis na próxima semana provoca preocupação quanto ao índice de janeiro. Entretanto, é muito importante observar o conjunto da economia antes que uma posição pessimista forje problemas que não existem.
Primeiramente, a alta anunciada atinge álcool, gasolina e diesel. São componentes importantes do custo de vida, mas o gás de cozinha, fundamental para a maioria da população, está fora do aumento. O GLP foi reajustado pouco depois do meio do ano e dificilmente haverá aumento no primeiro trimestre de 97.
Mas isto não é o mais importante. O que vale hoje é que o poder generalizado de repassar aumentos acabou. Foi-se o tempo em que os produtores podiam transferir aumentos para os beneficiadores e estes para os intermediadores e daí para o atacadista e finalmente para o varejo. Os combustíveis não escapam dessa lei inexorável chamada da Oferta e da Procura. As empresas terão de absorver a alta e queimá-la dentro do processo produtivo. No bolso do consumidor não dá mais para fazer. Por isso, as estimativas oficiais são de que os reflexos na inflação não passem de 0,4%, podendo ficar em apenas 0,1%. E isto somente porque os proprietários de automóveis não têm saída.
Naturalmente, o efeito inflacionário não é desprezível. O Brasil deseja ter logo mais uma inflação de país civilizado, e 0,4% de inflação somente por conta de aumento de combustíveis é alto demais. Além disso, a inflação nacional de dezembro deve ficar perto de zero, e um salto para 0,4% ou mais no mês seguinte parece exagerado. Mas não podemos perder de vista que nossa inflação ainda é de terceiro mundo. Nessas condições, o aumento não é tão grande que não possa ser assimilado por uma economia em processo de estabilização. Se fosse o contrário, com a inflação em alta, um reajuste desses poria mais lenha na fogueira dos preços em geral. Hoje, temos a nosso favor a importante diferença de que, apesar de ser ainda de terceiro mundo, a inflação está em baixa constante.
O preço nos postos deve ficar entre 5% e 6% mais caro para os proprietários de automóveis. É menos do que a alta verificada quando os preços da gasolina e do álcool hidratado foram liberados. De qualquer modo, a sociedade precisa estar alerta. Abusos podem acontecer em qualquer setor da economia. Outra vez será o consumidor - só que agora ajudado por um mercado em franca tendência de queda nos preços - quem terá a incumbência de enfrentar o desafio e evitar que o reajuste vá além dos seus efeitos naturais.
A tarefa hoje é mais fácil do que em outros tempos. Como os preços continuam a se comportar bem, esperando-se um índice Fipe muito próximo de zero em São Paulo este mês, fica mais difícil fazer especulação. O Brasil ainda não superou todos os traumas do passado recente e por isso a população não deve se descuidar. Mas temer uma disparada nos preços em janeiro é exagero de quem ainda não acredita na lei citada mais acima. Ou é do contra. Para este não há remédio. Mas para os preços, felizmente, a lei funciona há alguns milênios.





