A instalação ou não de uma Comissão Parlamentar de Inquérito, para apurar denúncias de corrupção no governo federal, agita neste momento o Palácio do Planalto e o Congresso Nacional, mas a triste constatação é que as razões que pesam para que tal ocorra ou deixe de ocorrer não é o benefício que a apuração da verdade traria para a nação, e sim o desdobramento político-partidário daí decorrente e a conveniência de cada partido e de cada deputado.
O presidente Fernando Henrique Cardoso poderia assumir a postura dos indiferentes ante à possibilidade de criação dessa CPI e deixar que ela acontecesse, se é que realmente nada tem a temer. Mas ele demonstra ser o menor interessado em uma CPI, pois não quererá ninguém investigando-o, até - se outra razão não fosse - pela sua conhecida vaidade, que o coloca acima dos deuses do Olimpo e provoca-lhe frequentes manifestações de irritação.
Então, FHC recorre às práticas já conhecidas de acenar com a liberação de verbas individuais para os deputados e ameaçar com afastamento dos cargos no governo os apadrinhados dos partidos e de alguns parlamentares, individualmente, como forma de barrar a criação da comissão investigadora.
Isto está acontecendo agora, e já se sabe que quem assinar o pedido da
CPI estará marcado. Por extensão, os prejudicados serão os cidadãos das regiões representadas por esses parlamentares, pela privação de benefícios que essas verbas proporcionariam. Mas isto parece contar pouco para o presidente da República e para a comunidade de abrangência do Palácio do Planalto.
Articulações fazem parte do jogo político, mas soa ditatorial a afirmação - de um porta-voz presidencial - de que os parlamentares que deixam de ser governistas passam a ser dissidentes e sejam tratados como oposição. Naturalmente com todos os castigos, como cortar verbas parlamentares e afastar ocupantes de cargos de quem pertença à ala dos contrários.
Nos tempos da ditadura militar denominava-se de ‘‘inconformismo ideológico’’ a posição dos discordantes, com todas as punições que o regime permitia. E agora, decorridos vinte anos, vê-se que esses tempos ainda não passaram e que certos modelos muito em voga na época ainda são adotados.
Mas não poupemos os parlamentares em função do revanchismo presidencial, porque o temor da maioria deles - salvando-se alguns poucos idealistas históricos - é a perda de poder e de influência com o afastamento de titulares de cargos de relevância e naturalmente o corte de verbas das emendas individuais. Tudo e tão somente conveniência política. O interesse nacional não conta.

mockup