Afinal, vai começar a investigação sobre a suspeita de operações fraudulentas com o dinheiro da venda, para a Copel, de 45% das ações da Sercomtel S/A Telecomunicações. A apuração dessa denúncia era reclamada porque, até hoje, não se sabe onde foi parar o dinheiro dessa transação - que originalmente foi de R$ 186 milhões mas que, com o rendimento de aplicações financeiras, resultou em cerca de R$ 205 milhões.
Acatando parecer do Ministério Público Federal, a juíza Anne Karina Stipp Costa acaba de determinar a abertura de inquérito para apurar as suspeições que cercam o caso. O mais diretamente envolvido é o prefeito cassado Antonio Belinati, pois foi em sua administração que a venda ocorreu.
Daquele montante, R$ 75 milhões foram destinados ao pagamento de dívidas da prefeitura junto a vários bancos. Essas dívidas, assumidas na administração de Luiz Eduardo Cheida, foram pagas na administração de Belinati. Causou estranheza, na ocasião, como essas contas se elevaram tanto quando foram quitadas. Os vereadores do PSDB chegaram a questionar esse fato, na ocasião. Surpreendeu, também, que o prefeito tenha determinado esse pagamento diretamente pela Copel, e tão rapidamente, ademais tratando-se de dívida quem nem era de sua gestão. Belinati poderia ter negociado, com algumas vantagens para a prefeitura, a quitação desses débitos, como é praxe no sistema financeiro, mas resolveu pagar tudo à vista e a juros cheios.
Dos R$ 130 milhões que sobraram da venda das ações, apenas R$ 6 milhões teriam restado no caixa da prefeitura (mais especificamente do Conselho de Gestão Fiscal-Cogefi, órgão gerenciador desse dinheiro), faltando saber qual a destinação dada aos demais R$ 124 milhões. O Ministério Público acredita que saíram desse ‘‘caixa’’ os desvios até agora comprovados.
O episódio da venda das ações da Sercomtel resultou, em 1999, na criação de uma Comissão Parlamentar de Inquérito, na Assembléia Legislativa. Porém, decorridas apenas 48 horas da instalação da CPI, 19 deputados da base governista recuaram e a comissão investigadora foi suspensa. Este é outro mistério nunca explicado.
Em depoimento que prestou ao Ministério Público, na época, a ex-diretora de operações da extinta Companhia Municipal de Urbanização de Londrina (Comurb), Lucia Brandão, sugeria que a CPI foi abortada porque Belinati teria subornado deputados estaduais. Ela declarou que o ex-prefeito teria comentado com outro ex-diretor da Comurb, Eduardo Alonso, que precisava levantar R$ 3 milhões para os deputados. A Câmara Municipal de Londrina também rejeitou a criação de uma Comissão Especial de Inquérito para investigar o mesmo caso.
A suspeita de suborno a deputados, levantada através de depoimento ao Ministério Público, e a suspensão abrupta da CPI da Assembléia, que aconteceu sem nenhuma justificativa pública - a que a população tinha direito - deixou muitos pontos de interrogação. Há que se saber o destino da tão volumosa quantia que sobrou da venda das ações da estatal telefônica. Muita bruma envolvendo os caminhos por onde teriam andado tantos milhões. A investigação que ora começa, em Londrina, pode trazer à tona grandes revelações.

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