Agora se anuncia que os líderes governistas no Congresso estão iniciando uma operação articulada para defender o governo federal dos ataques do senador Antonio Carlos Magalhães. Todas as estratégias são válidas quando se trata de salvaguardar a imagem pública do governo e preservar a governabilidade. Porém, mais uma vez, a nação se desencanta ao verificar como se mobilizam tão rapidamente os parlamentares se a causa é a autopreservação ou a defesa de interesses próprios envolvidos.
O foco dessa defesa agora é o presidente da República, alvo de tiroteio do combalido senador, que destila veneno e se debate em estertores pela perda de poder. Como se a nação estivesse ligada nessa briga estéril, que não resultará em nada útil a não ser a perda de tempo e de energia nas esferas do próprio governo. O movimento, com toda certeza, teve origem no seio do palácio presidencial, porque se há algo que sensibiliza o supremo mandatário da República, isto é o seu ego atingido.
Mas a ofensiva que falta - e que o Brasil inteiro aguarda - é a mobilização das forças sediadas no Congresso Nacional e no Palácio do Planalto pela causa das grandes discussões nacionais. Entre elas a reforma de legislações arcaicas que emperram o desenvolvimento, como a trabalhista, a tributária e a previdenciária, a adoção de políticas que libertem o país do atraso, o exame de leis e normas que impedem a agilidade da Justiça, afora as eternas questões da saúde, da educação e da segurança, e por extensão do bem-estar dos cidadãos e da paz social.
Enquanto isto não acontece, a nação vai assistindo à demissão de mais ministros e à nomeação de outros - que sejam da conveniência do momento político presente - e ao afastamento de ‘‘um monte de gente’’ (naturalmente gente de ACM), no dizer do porta-voz governamental.
E o Congresso - não obstante cumprindo um de seus deveres - gastará precioso tempo para examinar a possibilidade de cassação do senador importuno, em prejuízo de questões relevantes que aguardam discussão. E assim vão se passando os anos e se aproxima o final do mandato presidencial, sem que nada de grandioso aconteça no altiplano brasiliense.
Se ao menos as denúncias do senador resultassem em investigações, já teria validade essa guerra verbal que se trava entre os gigantes do poder, mas o governo não se empenha em apurar nada e descarta as acusações, simplesmente dizendo que nada há de concreto.
O governo inquieta-se com a turbulência que um único adversário provoca, e visa afastar essa assombração, ao que parece imaginando que o território brasileiro se circunscreve aos limites físicos da Praça dos Três Poderes no Distrito Federal. Há aqui embaixo um Brasil-cidadão que clama, mas isto não perturba os governantes, distanciados que estão em seus redutos e alheios às vozes que bradam do povo. Este não é o Brasil da comunidade governamental, e nem o presidente da República está muito preocupado com ele, eis que nunca o visitou e por isso não sabe o que se passa no país que governa.

mockup