EDITORIAL
Não há poder mais eficiente do que o clamor público para conter a corrupção e os desmandos dos governos. Palavras do ministro do Superior Tribunal de Justiça, Milton Luiz Pereira, em entrevista concedida a este jornal, em Londrina. Ele diz que, quando a sociedade se omite, o corrupto sente-se mais encorajado a agir, não só valendo-se da corrupção mas também corrompendo.
Com efeito, os cidadãos são os detentores de todo o poder, mas não o utilizam, ou porque ignoram a própria força, ou porque não têm disposição e espírito público para expor-se, ou ainda porque não são suficientemente unidos e organizados para agir em conjunto. Preferem a posição confortável da lamentação e não se arrojam em grandes cruzadas. Quando movimentos irrompem aqui e ali, são no mais das vezes isolados, por isso vulneráveis e mais fáceis de serem contidos.
Se a sociedade tivesse plena consciência do poder que tem e a capacidade de aglutinar-se, sem dispersões, não viveria em clima de tanta angústia pelas arbitrariedades governamentais, que são as grandes algozes da população ativa e operante. Assim reverteria a situação de temor em que vive ante os governos e, ao contrário, faria deles os cativos e tementes da sociedade.
A posição do povo de aceitar pacificamente as decisões dos governantes robustece-lhes o poder e dá-lhes certeza de impunidade, mas se a resistência popular resolver manifestar-se, nada haverá que a detenha. Não será necessário o uso da força - porque esta é a estratégia dos brutos - mas apenas a convicta serenidade de dizer não, quando preciso.
Se é frágil o espírito de aglutinação dos cidadãos, escasseiam também lideranças confiáveis que induzam as massas à mobilização e a grandes tomadas de decisão. É um equívo imaginar que novos líderes possam surgir da política tradicional, perfilada na outra banda, a dos que governam e se locupletam. Não será nessa seara que a sociedadade encontrará seus defensores, porque lá estão justamente os que a subjugam.
Haveria de surgir do seio das multidões líderes autênticos, livres das amarras representadas pelas atuais corporações político-partidárias, porque o partido, no Brasil, é um compartimento que mais defende interesses pessoais do que um conjunto de idéias, propostas e programas, como deveria.
Não é de se esperar, por isso, que grandes reformulações da vida pública nacional ocorram apenas por via de partidos. As mudanças deverão ocorrer através da mobilização e com apoio da sociedade organizada - onde é mais difícil vicejarem líderes que escondam propósitos escusos.





