EDITORIAL
Mesmo que todos os exércitos do mundo sejam mobilizados para conter os traficantes de drogas, ainda assim não se terá certeza de pleno sucesso. Porque redes internacionais poderosas e bem organizadas comandam este negócio, que envolve muito dinheiro. Suas ramificações alcançam os próprios organismos de segurança, e aqueles que se prendem nessa teia não conseguem mais sair, mesmo que o desejem.
Essas organizações possuem suas próprias forças de defesa e constituem um poder paralelo ao dos comandos oficiais de combate aos traficantes. Com a vantagem de que operam na clandestinidade, dominam conhecimentos estratégicos e dispõem dos mais sofisticados armamentos.
No universo das drogas, a humanidade relutante enfrenta, de um lado, o terror representado por essas vigorosas organizações de traficantes, e de outro o doloroso drama de assistir aos próprios filhos envolvidos no vício. Inicia-se aí a terceira batalha, que é buscar os caminhos da cura e reintegrá-los à vida sadia. Quando não ocorrem perdas irrecuperáveis, como comprometimentos sérios da saúde, acidentes e mortes.
Tudo o que se fizer é válido para conter o avanço das drogas e recuperar as suas vítimas. Um grande passo é não condená-las. A própria sociedade, que é contra o vício e não o quer rondando seus familiares, é muito crítica com relação aos viciados - os outros - e a primeira a apontá-los. Mesmo quando o mal atinge os seus, a atitude é de severa repressão, ao invés da atenção e do carinho, pois um viciado em drogas é um doente e não um delinquente.
É oportuno que a Campanha da Fraternidade, que a Conferência Nacional dos Bispos do Brasil-CNBB realiza todos os anos na Quaresma, se ocupe agora da questão das drogas. Uma voz a ecoar no deserto, dizem alguns. Porém uma voz, um movimento, mesmo que todos os exércitos do mundo tenham dificuldade em combater os traficantes. Não há que se perder o fôlego e a esperança. A campanha da CNBB, que não tem cor religiosa, deverá ser de todos.
Há também que louvar o trabalho voluntário que já realizam tantas pessoas e instituições, pela causa da recuperação de drogados, mas essa cruzada deverá ser contínua e envolver toda a sociedade, não apenas com palavras mas com ações.
As famílias e as demais instituições sociais - se não podem enfrentar os traficantes, porque não é esta a sua parte - devem mobilizar-se num movimento de salvação e não de condenação ao viciado, de apelo às emissoras de televisão para que não exibam filmes em que o uso das drogas é flagrantemente mostrado, e aos veículos de comunicação em geral para que não exaltem valores que se estribem no efeito dos alucinógenos. Tão forte quanto o poder das organizações criminosas que operam no negócio das drogas é este sutil mas permanente estímulo.





