EDITORIAL
O gigantismo de São Paulo haveria, inevitavelmente, de gerar guerras fiscais com os demais Estados, assim como aconteceu com as nações mais poderosas do mundo, que ao longo da história sempre tentaram impedir o crescimento e a independência das demais. Esta é uma guerra que parece fadada a não ter fim. Em decorrência dela grandes confrontos armados se travaram.
Natural que o imperialismo industrial de São Paulo tenderia a diluir-se, até pelo seu próprio inchaço, mas também porque os outros Estados foram espontaneamente crescendo, porque cresceu a população e assim cresceu a massa consumista e carente de emprego. Nesse processo, as políticas oficiais de incentivo não foram os únicos agentes desse crescimento, eis que um Brasil paralelo expande-se à revelia de apoios governamentais. Mas é inquestionável o esforço empreendido pelos Estados, e por extensão pelos municípios, para atrair empresas de fora, e isso gerou acirrada concorrência tributária entre as unidades da federação.
Essa guerra se assemelha ao que ocorre no relacionamento entre as nações. O episódio recente da retaliação do Canadá sobre o Brasil que teve sua erupção manifestada no embargo canadense à nossa carne bovina mas cuja origem foi a disputa do mercado de aviões tem muito de similar com as investidas de São Paulo contra seus Estados irmãos.
Não foi sem resistência que nosso vizinho de cima assistiu, pouco antes do meado do último século, à perda para o Paraná da hegemonia na produção cafeeira. O mesmo aconteceu com Minas Gerais, quando viu a pecuária paranaense expandir-se com a entrada das raças zebuínas puras, desbancando o então dominante plantel mineiro, naturalmente de inferior qualidade. Nosso Estado viria também a perder o seu reinado na produção de café, mas entraram outras culturas até então inexploradas no Paraná casos do trigo e da soja e chegariam as indústrias. Com elas, a guerra fiscal.
Na verdade foi São Paulo que decretou, muitas décadas atrás, a guerra fiscal no Brasil, pela sua natural posição de supremacia em face de um país ainda pouco populoso, escasso de estradas, de sistemas de comunicação, de infra-estrutura, de recursos e de conhecimento para se arrojar na implantação de indústrias. Hoje os tempos são outros, porque foi o próprio Brasil que se expandiu.
Por ora, São Paulo que desfruta de incentivos fiscais há quase 100 anos e ainda detém mais de um terço de tudo o que se produz no Brasil terá mesmo que abrir mão de alguns benefícios e abandonar seus ideais colonialistas. Inevitável que Estados produtores de matérias-primas implantem indústrias em seus próprios domínios e se valham de mecanismos para atrair os empreendedores.
Naturalmente, como manifestamos em nosso Editorial de domingo, dentro de princípios que não descambem para o favorecimento ilícito, mas que atendam ao bem comum, que não sejam lesivos ao Estado e portanto aos cidadãos, que beneficiem o maior número possível de pessoas e não ofereçam riscos ao meio ambiente.
Já se disse que os povos não têm amigos, mas interesses. Não é este certamente o melhor dos ideais, mas enquanto os homens não encontram melhor forma de convivência há que buscar caminhos que, ao menos dentro do próprio País, despertem o espírito patriótico e conduzam a um estado de mais entendimento e harmonia. O primeiro destes caminhos é implantar, com urgência, a necessária e esperada reforma tributária.
Se um Estado cresce, beneficiará os demais e dividirá também os encargos que advêm de todo processo de desenvolvimento. Nações ricas cercadas de nações pobres não devem se sentir seguras, assim como não devem estar seguros os Estados ricos se não virem tornar-se ricos também os demais. Se o Brasil cresce em conjunto, todos se enriquecerão.
Por isso, soa pouco sábia a atitude paulista de colocar obstáculos às políticas de crescimento dos outros Estados, porque São Paulo sabe do ônus que paga por ser o centro mais industrializado do País. A disseminação de empresas Brasil afora só fará tornar mais saudável a metrópole quadricentenária, tão rica mas tão contaminada por problemas sociais, decorrentes justamente do seu já incontrolável gigantismo.





