EDITORIAL
O governo de Fernando Henrique Cardoso ficará caracterizado pela privatização de setores da economia até então reservas de mercado da área estatal. São muitas as alegações para a abertura econômica: estabelecer competitividade para aumentar a produtividade e diminuir custos, reduzir o déficit público pela eliminação de estatais deficitárias ou com grande necessidade de capital de investimento, a globalização da economia que exige maior agilidade na decisão das grandes companhias, atrair capitais de investimentos estrangeiros para redução do déficit e, por fim mas não menos importante, a consolidação da tese de que a economia de mercado é realmente a mola mestra da promoção do desenvolvimento. A economia liberal alcançou grande sucesso nos Estados Unidos da América, maior potência econômica mundial e, por isso mesmo, capaz de impor seu modelo econômico aos países que necessitam de apoio financeiro para equilibrar suas contas de comércio exterior. Esta a situação em que se enquadra o Brasil. Até a eleição de FHC, a opção brasileira para manter o equilíbrio de sua balança de pagamento era um rígido controle das importações com fortes estímulos à exportação. O componente novo introduzido por Itamar Franco na gestão econômica foi o rígido controle do déficit interno. Isto permitiu redução da taxa de juros que levou à retomada do crescimento econômico em 1994, contribuindo para o elevado índice de aprovação (80%) do presidente Itamar Franco ao deixar o governo em janeiro de 1995.
Fernando Henrique adotou outro modelo. Havia o modelo do Chile que deu certo e o da Argentina, que até hoje não deu certo. A equipe econômica, sem criatividade e competência para desenvolver um projeto para o Brasil, copiou o modelo argentino. Gustavo Franco, paladino e avalista desse modelo, acabou sendo ejetado do governo em 1999. O presidente, saltando no escuro, abandonou o controle das importações, cortou os estímulos às exportações (subsídios, na linguagem cartesiana de seu ministro da Fazenda), afrouxou o controle das contas internas prometendo reformas que até hoje não se realizaram e adotou o discurso da privatização para cobrir o déficit público e atrair capitais estrangeiros para equilibrar as contas externas. Ao pôr em prática um conjunto de idéias aparentemente brilhantes, mas sem levar em conta premissas que garantiriam o sucesso da proposta, transformou, em meia dúzia de anos, o poço que eram as contas internas e externas, em uma cratera pior do que a Serra Pelada.
Agora assistimos ao governo do Estado tentando convencer a população das vantagens da privatização da Copel. Vantagens para quem? Já foram vendidas quase todas as grandes estatais brasileiras e a cratera do déficit está se tornando abissal, um buraco negro sideral. Portanto aquelas alegações não se justificam. Outro aspecto relevante que precisa ser melhor explicado é o critério adotado para a venda, ou seja, a venda do bloco fechado de usinas. Quando se tem algo muito grande e muito valioso para vender, o número de interessados é reduzido porque poucos têm recursos disponíveis para investimento de valores expressos em bilhões de dólares e, destes, aqueles que não são do ramo certamente não terão interesse em participar da compra. Pela lógica econômica e pelas práticas de comércio adotadas mundialmente, o correto seria a venda uma a uma das usinas. Com este critério, certamente se apuraria maior volume de recursos nos leilões, pela participação de maior número de interessados, com isto alcançando o primeiro objetivo colocado de início que seria de se estabelecer verdadeira competitividade no setor. Outro aspecto relevante merecedor de ampla análise e reflexão por parte da comunidade paranaense é a verificação do que realmente tem acontecido com as empresas já privatizadas ou privadas que passaram às mãos de grupos estrangeiros. Esses investidores estrangeiros, donos do capital selvagem, têm em mente apenas o lucro, farto e sem risco. O Brasil ainda é considerado de alto risco e por isso a preocupação deles ao tomarem um investimentos aqui é de remeter todo o lucro o mais rápido possível para o exterior com isto anulando a aparente vantagem, para o País, dos benefícios do investimento inicial. Note-se que as remessas para o exterior, para serem compensatórias e representarem lucro, devem ser sempre superiores ao que foi investido.
Voltando à questão Copel, outro ponto relevante é que os custos dos investimentos da maioria das usinas é zero, já foram amortizados e as despesas de manutenção são baixas, o número de empregados é reduzido pela natureza do trabalho ou seja, o maior volume de recursos que entra em caixa é sobra ou lucro. A alegação de que a Copel não dispõe de recursos para investir em novas usinas é falso, não se sustenta. Ainda que fosse verdadeiro, não justifica sua venda mas tão somente que se abra o mercado da construção de novas usinas, como já tem sido feito, para novos investidores.
A venda da Copel não estabelecerá maior competitividade no setor, não haverá redução do custo de produção que se traduza em benefício para os consumidores pois o preço cobrado destes é estabelecido nos acordos com o FMI que asseguram maior faturamento aos compradores. Além disso, não teremos garantias de novos investimentos para incremento da produção de energia e, por fim, provavelmente, serão usados recursos do BNDES para financiar o comprador estrangeiro, único com cacife para se candidatar aos benefícios desta negociata.
José Eduardo de Andrade Vieira





