EDITORIAL
O prefeito cassado Antonio Belinati deixa como herança um novo problema para Londrina, só agora tornado público, desta vez envolvendo o terreno que, em sua gestão, a prefeitura doou a uma empresa particular para construção do Centro de Eventos, recentemente inaugurado na zona sul.
Ocorre que essa área, que tem quase 15 alqueires e localiza-se em ponto nobre da região suburbana, estava destinada à construção de uma escola agrícola, em parceria com o governo federal, mas acabou sendo destinada a outro fim.
O governo federal chegou a enviar o dinheiro, uma parte foi utilizada nas obras, e R$ 740 mil desse valor ainda estão depositados na conta da prefeitura, porque o empreendimento não teve continuidade.
Essa construção iniciou-se em 1992, na segunda administração de Belinati. Segundo a Auditoria da prefeitura da gestão atual, cinco salas de aulas e um estábulo já estavam quase concluídos, mas parte dessas construções não está mais lá, ou deteriorou-se. A empresa beneficiária da doação para o centro de eventos afirma que não destruiu nada. E agora o prefeito Nedson Micheleti quer apurar esse sumiço e afirma que vai lutar para reutilizar a verba, sem ter que devolvê-la.
Também não se entende como, ao estabelecer-se o convênio para implantação da escola agrícola, o governo federal não tenha exigido a cessão desse terreno ao Ministério da Educação. -
O fato evidencia irregularidades. A primeira delas, a mudança das finalidades do terreno, a seguir edificações destruídas, depois de consumirem verba pública, e afinal a doação da área em excesso, com sabor de favorecimento.
Esses fatos só chegaram agora ao conhecimento da população porque o Ministério Público Federal (MPF) acaba de enviar pedido de informação à prefeitura acerca das obras da escola agrícola.
A doação do terreno à empresa PBV Representações, Eventos e Participações Ltda., de Curitiba, ocorrida em 1998 no terceiro mandato de Belinati teve a aprovação da Câmara de Vereadores mas foi cercada de polêmicas, pelo tamanho da área e seu elevado custo para um empreendimento que, esperava-se, fosse um magnífico centro de convenções de que a cidade necessitava e ainda necessita e não um complexo apenas para promoção de feiras (e eventos afins), cujo investimento estrutural é pequeno em relação às dimensões e ao alto valor do terreno. Ademais, porque a edificação ocupou apenas 5 dos 15 alqueires.
É certo que os 10 alqueires restantes ainda se prestam para a escola agrícola, porém agora essa área já não é propriedade pública, mas particular. Recorda-se que, à época, a Comissão de Justiça da Câmara alertou que se tratava de terreno grande demais para aquele fim, mas o prefeito vetou cortes na dimensão da área, mesmo sabendo que os empreendedores do Centro de Eventos não iriam utilizar mais que 30% dela. Esse terreno é avaliado hoje em R$ 2 milhões.
A intervenção do Ministério Público Federal se deve apenas à questão da verba destinada e não aproveitada, mas é evidente que a Promotoria Pública em Londrina tem agora mais estas irregularidades para investigar. Se não por outra coisa, ao menos para apurar como uma obra pública, já quase pronta, foi destruída, quando e por quem, e a prodigalidade da administração pública municipal em doar uma tão valiosa área de 15 alqueires quando apenas 5 bastavam.





