Conta-se nos anais da imprensa que um jornal, não obstante houvesse dito a verdade sobre negócio fraudulento de um certo homem público, fora interpelado judicialmente e, não se sabe por quais arranjos - sempre possíveis pelos tortuosos caminhos que a múltipla interpretação das leis e dos fatos possibilita - foi acusado de haver entendido mal o que lhe informara um agente da Justiça e acabou condenado a desdizer-se publicamente.
Ordem acatada, no dia seguinte o jornal estampou, em destaque e no mesmo espaço determinado pela corte da Justiça, a retratação: ‘‘Sobre (Fulano de Tal), onde escrevemos que é um dilapidador dos cofres públicos, um conivente com os desmandos, ladrão comprovado e juramentado, leia-se que é um santo homem.’’
O magistrado teve que acatar como atendida a sentença. Até porque nem ele acreditava na honestidade do requerente e porque conhecia a seriedade do requerido. E como ninguém mais nada disse nem foi perguntado, deu o caso por encerrado.
É conhecida a cantiga que diz: - ‘‘Tem boca de leão mas não é leão, tem juba de leão mas não é leão, tem patas de leão mas não é leão, tem cauda de leão mas não é leão, tem dentes de leão mas não é leão, tem pelagem de leão mas não é leão, tem jeito de leão mas não é leão. Então o que é? É a mulher do leão.’’
A mulher do leão sempre conhece todos os passos (e pulos) do companheiro, até por instinto da própria espécie. E ainda mais se foi vista indo com ele beber na mesma fonte. Como os bichos da floresta viram muitas vezes isso acontecer, seria difícil para a mulher do leão conseguir provar - na eventualidade de destronarem o leão por beber água demais, a ponto de quase secar o vertedouro - que a água que ela bebia não era da mesma fonte.
Fatos iguais a este do rei leão e da consorte rainha da floresta têm acontecido também na vida real dos homens (e mulheres), e qualquer semelhança com episódios antigos ou recentes, distantes ou próximos, não será mera coincidência.
Se ocorrer o fato de se ter que dizer que a mulher do leão da vida real foi apenas um mal-entendido, não restará outra opção senão retratar-se e declarar: - ‘‘É uma santa mulher.’’ E será dado o caso por encerrado, porque quando um poder mais alto se alevanta cessa tudo o que a velha música canta.

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