Editorial
Pouco tempo depois do lançamento do real, o crescimento do consumo produziu um fenômeno imprevisto e desagradável: a explosão do nível de inadimplência dos consumidores, causada indiretamente pela estabilidade da moeda e diretamente pelo desejo de consumir, reprimido por uma década de inflação e hiperinflação. A maioria da população foi na onda do consumo sem se dar conta de que os salários haviam entrado na maré baixa da estabilidade. Assumindo compromissos demais e sem os reajustes salariais de antes, boa parte dos consumidores naufragou, levando no mergulho muitas empresas do varejo e até mesmo indústrias, pegas de surpresa pela inadimplência do pagador final. Só com o passar do tempo e os ajustes forçados pelo bolso curto, os consumidores passaram a perceber melhor a nova situação e as coisas começaram a entrar nos eixos.
Repentinamente, três anos depois, sobe o índice de inadimplência dos consumidores. Agora, não é nenhum efeito da mudança do cenário econômico. A população já se adequou à nova vida, sabendo que se os preços dos produtos mantêm uma certa estabilidade, seus ganhos também não sobem mais como antigamente. O problema é outro, sem dúvida mais sério, conforme dados dos analistas de mercado.
Segundo essas análises, duas são as causas principais da inadimplência de hoje. A primeira é o desemprego. Efetivamente, se o consumidor perde sua fonte de renda - o trabalho -, terá problemas para honrar seus compromissos se continuar gastando o que gastava antes. E como a reconquista do emprego é difícil e mudar hábitos de consumo também, quem fica desempregado e tem prestações a pagar vai, forçosamente, atrasar os pagamentos.
A segunda causa são os juros, que continuam elevados, notadamente naqueles meios de endividamento mais fáceis: o cartão de crédito e o cheque especial. Lojas que vendem a prazo estão cobrando juros menores do que tempos atrás, como reflexo da situação mais favorável da economia. Um dos argumentos de venda dessas empresas é, exatamente, o juro mais baixo. Entretanto, o mesmo não ocorre com os cartões de crédito e nem com os cheques especiais, pois os juros bancários e de financeiras sobre o saldo devedor ainda estão, em muitos casos, acima de 10% ao mês. E mesmo abaixo de 7% ao mês - em poucos casos -, são juros altíssimos se comparados com a inflação anual de 8% neste momento.
Sem a administração férrea das dívidas, não há quem possa, a médio ou longo prazo, suportar essas despesas. A consequência é inadimplência, perda de bens, queda geral do consumo, retração da economia e até fechamento de empresas.
É o que já está acontecendo no comércio. Tem crescido bastante o índice das empresas que pedem concordata, precisamente porque não estão recebendo as prestações nas vendas a prazo. O problema se avoluma e se realimenta do efeito negativo que vai minando o sistema produtivo. Na ponta final, com o fechamento de empresas, produz-se mais desemprego.
O desemprego não é só um drama individual. É um problema social que todo governo deveria tratar como prioridade, ao invés de deixar que as leis do mercado façam os ajustes naturais sabe-se lá quando e como. A autoridade constituída tem o dever - no caso, a obrigação - de tomar medidas de estímulo aos investimentos capazes de gerar empregos. Na agricultura, na indústria, no comércio, nos serviços. Mas se isso é muito, deve no mínimo tomar medidas que não piorem a situação. E uma delas, até hoje ignorada, é o controle sobre as contas públicas. O descontrole dos gastos oficiais - nos três níveis de governo e nos três poderes - é a causa básica do absurdo nível de juros em que vivemos.
Isto, infelizmente, não está ao alcance do inadimplente individual resolver. A única coisa que se pode fazer, e recomendar, é passar a tranca no cheque especial e no cartão de crédito. E só recorrer ao crediário das lojas depois de pesquisar muito e fazer as contas de matemática financeira que, se não aprendeu no colégio, era bom já ter aprendido há muito tempo. Do contrário, o que lhe espera é o naufrágio completo num mar de dívidas.





