Não é viajando para Nova York nem circunscrito nos limites próximos do Palácio Iguaçu que o governador Jaime Lerner saberá qual o grau da temperatura nas diferentes regiões que governa. Segunda-feira, visitando Londrina - depois de mais de um ano que não o fazia - Apucarana, Campo Mourão e Toledo, o governador sentiu o pulsar da indignação popular e certamente se inteirou de que é preciso visitar com mais frequência o interior e sentir o clamor do povo.
O governador não saberá o que ocorre dentro do Estado se apenas ficar ouvindo os fiéis escudeiros, que só desejam passar-lhe boas notícias, mas indo ao encontro das pessoas, como acaba de fazer. Faça o chefe do governo visitas a outras regiões do Estado e verá que manifestações idênticas de descontentamento ocorrerão. Não se melindre, portanto, com as cenas de reclamação e protesto que presenciou nas cidades que acaba de visitar. E mais não viu porque suspendeu estrategicamente a visita que faria na sequência a Foz do Iguaçu.
Curiosamente, e apenas para lembrar en passant, nunca se viu um paralelo tão perfeito como o da indisposição do presidente Fernando Henrique em visitar o Brasil e de Jaime Lerner em visitar o Paraná; do gosto presidencial por viajar para o exterior e do idêntico hobby do governador paranaense; do anseio por buscar reconhecimento lá fora, como ocorre com FHC, e do caso idêntico de JL, que adora premiação por coisas captadas de ouvir dizer, acerca do governador urbanista, mas cuja realidade não é bem assim. Porque o povo não está contente com o governador que tem.
Jaime Lerner parece perfilar entre os que imaginam que o Paraná acaba no Parque Barigui, o ponto limite de Curitiba que separa a Capital do resto do Estado. E no sentido inverso é o mar... ou as nuvens, cujo portal é o Aeroporto Afonso Pena.
Se o governador Lerner consulta apenas seu secretário de Educação irá ouvir que tudo vai bem com o ensino, com as escolas e os professores; se só escuta o que lhe diz o secretário da Cultura, ouvirá que tudo vai bem na ribalta e que não há reivindicações e nem queixas; se ouve somente seu secretário dos Transportes, sairá a passeio pois ele lhe dirá que as estradas estaduais estão bem conservadas e que nas federais todos estão muito felizes pagando o pedágio; ouvirá que os transportadores de cargas estão chorando de barriga cheia e que as greves de protesto são coisas de agitadores ou de ‘‘pessoas
mal-educadas’’, como se expressou o secretário Greca ao referir-se aos manifestantes de segunda-feira.
Se ouvir apenas os seus líderes na Assembléia, viajará em paz para o exterior, mas depois se surpreenderá com o que verá nas ruas. A verdade então se manifestará, tal como é. E, de corpo presente como experimentou agora, o chefe do governo verá que a população está indignada com o pedágio, os professores descontentes com os baixos salários e a situação das escolas, os policiais estressados pelo regime de trabalho e os baixos ganhos, e suas esposas ostentanto cartazes de protesto, com aconteceu segunda-feira; verá os cidadãos ainda revoltados com os escândalos do Banestado e dos Jogos Mundiais da Natureza, com a Copel refém de títulos fraudulentos adquiridos pelo Estado, com o envolvimento de destacadas figuras da área da segurança no processo do narcotráfico, com o descontrole que leva a atos violentos como o atentado à Promotoria de Investigações Criminais, com o veto a verbas para a cultura, com a dívida do Estado, que assume proporção astronômica e comprometerá as administrações futuras, e por aí afora.
‘‘Isto não é um processo democrático’’, desabafou o governador, irritado com o que viveu neste seu périplo pelo interior. Pois é exatamente o que este processo é: democrático. S.Exa. é que não sabia que estas são as vozes que estão bradando das ruas.

mockup