EDITORIAL
O governo sempre tem deixado que as coisas cheguem ao ponto de combustão para depois agir. Na presente greve dos caminhoneiros isto ficou mais uma vez demonstrado, porque há bastante tempo as autoridades têm em mãos a lista de reivindicações da classe e estavam cientes da possibilidade de greve.
Afora essa imprevidência do governo, parece estar ocorrendo um conflito de vontades e poderes dentro da própria esfera governamental, com o ministro da Justiça de um lado, avesso a diálogo e reforçando as operações de repressão nas estradas - inclusive com a destinação de grande soma em dinheiro para gratificar os policiais rodoviários em ação - e de outro o ministro dos Transportes, aparentemente sem grande força mas favorável a negociações.
Porque, enquanto o ministro da Justiça intransige em chamar à mesa de negociações os líderes dos caminhoneiros, esperando vencê-los pela exaustão e, assim, que a greve se dilua por si própria, o ministro dos Transportes manifesta-se favorável a um encontro para entendimento. Porém o máximo a que este chegou foi anunciar que na próxima quinta-feira, portanto só daqui a uma semana, haverá uma reunião ordinária entre os sindicatos da categoria reconhecidos pelo governo federal e as entidades patronais do setor de transportes, para retomar as negociações contidas na pauta de reivindicações dos caminhoneiros.
Intransigência de um lado, pelo uso da força repressiva, e frouxidão de outro, dentro da mesma área de atribuições, e a aparente ausência da autoridade do presidente da República.
De sua parte, o ministro da Justiça - de quem emana a ordem para endurecer contra os grevistas - parece pouco preocupado com a paralisação, que entra hoje no sétimo dia e já causa grandes prejuízos, pela irregularidade no abastecimento de combustíveis, de gêneros alimentícios e mercadorias em geral e pelos choques e atos de violência que já estão acontecendo, pela infiltração de oportunistas radicais estranhos à categoria dos profissionais em greve.
Se é atribuição dos organismos de repressão agir, quando se trata da manutenção da ordem pública, os cidadãos esperam que, paralelamente ao que ocorre nas estradas, o governo se debruce à mesa das negociações e discuta as reivindicações dos caminhoneiros. Mas isto o governo não faz, porque, ao que tudo indica, o ministro da Justiça não quer discutir frente a frente com lideranças com as quais já demonstrou não simpatizar.
A nação, então, fica à mercê do emocionalismo e da teimosia de uma autoridade do governo, enquanto o presidente da República vai permitindo que as coisas aconteçam, quando poderia ter diligenciado, em tempo, para que não houvessem acontecido, ou, no mínimo, que fossem resolvidas durante estes suficientes sete dias de greve. A pergunta que todos fazem é o que mais o governo está esperando.





