As chuvas que marcaram principalmente o mês de junho, bem mais intensas que as de anos anteriores, acabaram ajudando o Brasil. Segundo estudo do Grupo Coordenador de Operações Interligadas da Eletrobrás (GCOI), não há necessidade de antecipação do horário de verão, que sempre se inicia na segunda semana de outubro, porque os reservatórios estão com 84% de suas capacidades, ou seja, 7% acima do que se poderia esperar para esta época do ano. O governo chegou a pensar na antecipação da medida, principalmente por causa do horário de pico do consumo. Mas como os reservatórios estão cheios e as pessoas procuram economizar, esta mudança foi posta de lado, pois os responsáveis pelo abastecimento de energia concluíram que é perfeitamente possível começar o horário de verão em outubro, conforme os planos já estabelecidos.
Tecnicamente, com as usinas gerando energia com quase força total, o País tem uma folga, ainda que pequena, entre o que pode gerar e o que se consome. As previsões dos técnicos são também satisfatórias para os próximos anos, já que antes do final do século estarão entrando em operação novas hidrelétricas ou novas máquinas em hidrelétricas já em operação, melhorando a margem de segurança. Com isso, persistindo o quadro atual, são menores os riscos de um blecaute no futuro próximo, mesmo com o aumento no consumo tanto em decorrência das necessidades normais como pelo crescimento populacional.
Ocorre que esta situação deve servir apenas para tranquilizar a curto prazo, mas não pode, de modo algum, permitir que o País continue à espera de chuvas adequadas ou de outras situações ao invés de investir, séria e plenamente, na geração de energia. Nenhum país do mundo pode pensar em enfrentar adequadamente os desafios do próximo século se não tiver uma política energética muito bem estruturada, levando em conta não apenas as necessidades atuais, mas as projeções futuras. Este programa, naturalmente, não envolve apenas a energia hidrelétrica, mas todo o complexo de produção de energia que inclui o petróleo e outras fontes alternativas.
O que preocupa é a impressão segundo a qual o Brasil não está encarando esta situação com a seriedade necessária. Anuncia-se, por exemplo, a intenção de atingir até o final do ano a produção de um milhão de barris por dia de petróleo, o que ainda faria o País importar 500 mil barris diariamente para atender às necessidades de consumo. O problema é que pode haver cortes nos investimentos da Petrobrás, ameaçando inclusive este projeto. No campo hidrelétrico, o País igualmente vem enfrentando problemas e dificuldades, necessitando investir mais e urgentemente para garantir o abastecimento. O álcool, energia alternativa que começa a ser pesquisada em outros países, continua com seu programa indefinido. Outras alternativas, inclusive o uso da energia solar, no Brasil praticamente inesgotável, sequer estão merecendo os investimentos necessários para uma pesquisa capaz de produzir resultados.
Para o novo milênio, a auto-suficiência na produção de energia constitui o maior desafio da sociedade. O Brasil tem tudo para resolver seus problemas, garantindo a base para o futuro. Mas precisa investir mais, levar mais a sério o planejamento e não esperar que apenas a chuva ajude a evitar racionamentos ou blecautes.

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