EDITORIAL
É de completa irresponsabilidade a intransigência do governo em não chamar para o diálogo os líderes da greve dos caminhoneiros, quando a paralisação já entra no quarto dia, e de total insanidade ao autorizar gastos de R$ 346 milhões em gratificações aos policiais rodoviários para que ajam pesado sobre os grevistas.
Se a protelação do governo em negociar é uma nítida amostragem de intransigência, a decisão de gastar tão enorme quantidade de dinheiro com a repressão ao movimento é uma perigosa atitude, pois caracteriza provocação, e tal não se espera que parta do governo, especificamente do ministro da Justiça, que é quem está comandando essas manobras.
Esta medida governamental, ao invés de quebrar a força da greve, tende a robustecê-la, porque agora as lideranças do movimento já ameaçam abandonar o caráter pacífico de seu protesto e bloquear as rodovias. E pensam nisto justamente como resposta ao gesto do ministro, conforme declaração de um porta-voz da Movimento União Brasil Caminhoneiros-MUBC.
Diante do que acontece, tem-se que o presidente da República ou ignora o que está fazendo o seu ministro, ou tem disto pleno conhecimento, o que, em ambos os casos, cria uma situação de insegurança e de incerteza sobre o que possa ocorrer daqui para a frente.
Se a desestabilização do abastecimento, face à paralisação dos transportadores de cargas já causa apreensão, o bloqueio de rodovias geraria uma verdadeira batalha nas estradas pelo estado de exaltação em que estão os ânimos, agora acirrados pelo ato do governo de municiar os policiais rodoviários com gratificação em dinheiro pelas operações especiais que realizarem contra os caminhoneiros grevistas infratores das normas da lei.
Ademais, se o governo deseja contemplar com melhores ganhos os policiais das estradas, deve fazê-lo pelo meio de há muito apontado pela comunidade desses agentes rodoviários, que é a remuneração digna e permanente e não gratificação extemporânea, como agora acontece. Ao tomar essa atitude, o governo agride também os policiais rodoviários, pois o recurso da gratificação como estímulo a uma ação mais efetiva neste momento tem muito de semelhante com o suborno.
É nítido que a esfera governamental não deseja negociar com os líderes da greve, mais parecendo uma briga pessoal do ministro da Justiça com o presidente do MUBC. E a atitude anunciada pelo governo de aumentar a margem de lucro dos donos de postos, na venda do óleo diesel, é apontado pelos grevistas como estratégia para evitar que esses distribuidores do combustível viessem a engrossar a greve dos caminhoneiros. Age então o governo por estratégia e não por sensatez. Muito pior, por imprudência, ao contemplar uma classe reivindicante - a dos donos de bombas de óleo diesel - e ao desprezar as reivindicações dos caminheiros, já postas há bastante tempo sobre a mesa do governo.
É imprudente e irresponsável o governo negar-se a negociar com os caminhoneiros num momento como este, quando está em jogo a própria segurança nacional. Porque, pela característica do trabalho que executam, esses profissionais em greve são agentes que podem levar o País ao imobilismo pela falta de combustível e pela interrupção no abastecimento de mercadorias, sobretudo as alimentícias, na maior parte perecíveis.
Muito mais sensato do que este enfrentamento será sentar-se à mesa das negociações, porque cada dia em greve representará enorme prejuízo para o país. E um dia perdido será uma contagem de tempo muito significativa numa greve com esta característica, envolvendo um segmento importante demais para o ministro da Justiça ficar brincando de guerra.





