EDITORIAL
A incoerência do governo na questão da greve dos caminhoneiros é que trata com desdém o ato da paralisação caso do ministro da Justiça, que o qualifica de político, e da Polícia Rodoviária Federal, que o considera um fiasco mas ao mesmo tempo preocupa-se com o abastecimento. Então, nesse momento reconhece o transportador de carga como imprescindível. Por um lado o desdenha, nos momentos em que ele reivindica e é levado ao extremo de uma greve, por outro valoriza-o quando o qualifica como útil para não desestabilizar o abastecimento.
Se o governo considera o caminhoneiro importante, deve sentar-se à mesa das negociações, ouvir as reivindicações e discuti-las à exaustão. Impossível que por este caminho não se chegue a um ponto de concordância. Mas se não o acha importante, deve então apresentar as alternativas que garantam a normal circulação das mercadorias e possa, assim, dispensar o trabalho desses profissionais.
O que reivindicam os caminhoneiros? Uma tabela nacional de fretes que tenha como base de cálculo o preço do óleo diesel e o total de quilômetros rodados; cumprimento enquanto outra fórmula não for encontrada para substituir o pedágio da lei que criou o vale-pedágio, cujo custo eles querem que seja bancado pelos donos da carga; mais segurança nas rodovias; aprovação, em caráter de urgência, de projeto de lei regulamentando as atividades do setor; e retorno do Fundo Rodoviário Nacional no lugar do pedágio.
Como se vê, este não é um movimento político-partidário, como afirma o ministro da Justiça ao declarar que o líder dos grevistas quer ser deputado. Soa infantil essa afirmação partida de tão alta autoridade da República diante de reivindicações que, pelo seu teor, demonstram estar acima da simples conquista de um cargo eletivo. Certamente que os quase 2 milhões de caminhoneiros em greve reivindicatória não o fariam apenas para fazer de seu chefe um deputado, nem o pretenso candidato teria mobilizado tanta gente apenas pelo seu suposto desejo de eleger-se para o que imagina o ministro.
São pronunciamentos como este, em hora grave e que exige bom senso, que desacreditam os homens do governo e induzem profissionais reivindicantes a partirem para atitudes extremas, como a greve e outras manifestações. Debater não significa necessariamente concordar, mas neste País a autoridade já é arredia em concordar com o debate, quanto mais em ceder a reivindicações. Se o faz, é quando qualquer movimento já chegou ao ponto de combustão e a sociedade começa a ser prejudicada.
Se seus homens, como o ministro da Justiça, tratam esta greve como brincadeira, deve então o presidente da República assumir o comando e pronunciar-se. Porque estas são questões de segurança nacional, não no sentido político-ideológico que se dava em passado recente, mas de que a paralisação dos transportadores de cargas afeta diretamente todos os cidadãos e pode resultar no caos e no descontrole da ordem e da paz social.





