Não são só os marginais que têm medo da polícia mas também os cidadãos comuns, que nada devem mas ainda assim a temem, porque sempre imaginam que ela lhes possa trazer mais molestamentos que benefícios. Tal não é verdadeiro nessa proporção, mas a qualquer pessoa do povo que se perguntar ela dirá que a presença de um policial infunde mais temor que segurança.
São estes os fatos contra os policiais e a imagem que temos deles, mas o que poucos indagam são as ruas razões. Há um ano, a Folha foi ouvi-las, entrevistando policiais-militares do Paraná – que somam 17 mil em todo o Estado – e publicou revelações até então desconhecidas da sociedade acerca do emocional desses guardiães da ordem, sobretudo o stress em que vivem.
Este ano, uma nova reportagem foi feita, mostrando que a situação não havia mudado. O jornal ouviu dos policiais-militares que a maioria opera em constante estado de tensão pelas situações de risco, pelo baixo ganho e por algo que não se supunha: a pressão dos comandantes e a rigidez do regime a que são submetidos. Em conquência disto muitos são levados à depressão, ao alcoolismo, a psicoses e a doenças.
A denúncia que fazem é que essas informações não são divulgadas pelos comandos. A dramática realidade a que chegou a situação não escapou da vigilância da Associação de Defesa dos Direitos dos PMs Ativos, Inativos e Pensionistas, que fez uma levantamento a respeito. A intenção era reunir dados, como de fato a entidade fez, e buscar solução para a questão, porém surpreende que os comandos busquem manter sigilo sobre esses casos e não os submetam ao conhecimento público e dos especialistas, em busca de solucioná-los.
Hoje, o Serviço de Ação Social da PM apenas admite que este ‘‘é o retrato da corporação’’ e que a Clínica de Psicologia que atende a essa área tem apenas 6 psicólogos para todo o efetivo e ainda seus familiares. Os psicólogos afirmam que os sintomas do policial estressado se manifestam em perda de sono, fobias, irritabilidade e agressividade. O que, naturalmente, não são bons atributos para um agente que tem de atuar junto à sociedade, e nos piores momentos enfrentar delinquentes.
A mulher de um policial-militar narra que seu marido era alcoólatra – o que é favorecido pelos bares que oferecem bebida gratuitamente a esses agentes – e que ele havia deixado de beber mas voltou ao vício e tentou o suicídio, no início deste mês, vindo agora a morrer em consequência de seu gesto. A revelação que ela faz é o desabafo que o marido fazia, de que ‘‘só com bebida na cabeça’’ poderia aguentar o baixo salário – depois de 23 anos na corporação – e a humilhação a que era submetido pelos superiores. É dela a expressão de que o policial ‘‘é um cidadão sem cidadania’’.
Pelo depoimento de outra esposa de policial, impera o autoritarismo dos comandantes sobre os subordinados, o que parece refletir no idêntico comportamento que têm os policiais no trato com o público. Se os organismos policiais, pelo sistema de suas hierarquias, são escolas de autoritarismo – emanado dos chefes – o resultado é o que conhecemos: policiais igualmente autoritários, levando os cidadãos a temê-los quando deveriam sentir-se seguros com eles.
É muito presente, nos depoimentos dos policiais, que uma das razões do stress é o abuso de autoridade dos superiores, que os obrigam a obedecer ordens que eles denominam de arcaicas e que se traduzem por absurdas e injustificadas, típicas de organismos estratificados que seguem rígida disclipina militarista, que tange o policial com 138 itens punitivos. Daí o espírito imperante nas polícias de serem mais punidoras dos cidadãos do que beneficiadoras. Uma mentalidade que certamente precisa mudar. Mas essa mudança tem que começar pelos comandos.

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